domingo, 13 de julho de 2008

Fases

Quando deitei pra dormir, procurei o seu cheiro em mim e você estava lá: o calor, os sussurros, seus movimentos a noite inteira... Meu coração acelerou e me deixou de novo ofegante. Estava com sono, mas inquieta. Nem tentei resistir ao seu sorriso, nem tentei não me encantar com a sua alegria. Me envolvi nos seus lençóis... Ficamos tão próximos que não sabia onde minha pele terminava e onde começava a sua. Não, não parecia próximo o bastante. Queria-se mais... Se pudéssemos nos fundir ou devorar um ao outro, beijos, cheiros e mãos transbordariam...

Digo tudo que sinto. Tornou-se algo natural pra mim.

Ouço palavras delirantes de um recém-nascido. Ele está um pouco assustado com tantas sensações novas. Tantas cores, cheiros, sabores... Os sentidos mal conseguem acompanhar tudo isso... É como se nunca tivesse experimentado algo assim antes. É difícil descrever o novo! Às vezes ele diz certas coisas comprometedoras, tão baixinho, que mal dá pra ouvir. Como se ele estivesse transbordando, mas não quisesse se precipitar. Eu ouço, sorrio e finjo que não ouvi nada. Feliz da vida...


Eu te amo tanto que às vezes não sei o que fazer com tudo isso. Se guardasse, eu certamente explodiria.

Prefiro, então, partilhar esse sentimento com meus outros amores. Meus amigos e minha família não têm do que reclamar, pois convivem com uma versão mais feliz de mim. Sou uma filha mais carinhosa, uma irmã mais compreensiva e uma amiga otimista que enxerga solução pra tudo.

Acredite, ainda assim, há amor demais pra eu guardar sozinha. Preciso de você para dividí-lo em dois e multiplicá-lo. Preciso de você para se perder comigo nessa imensidão.


Hoje acordei com uma inquietude atípica. Não atípica pra mim, mas pra pessoa que resolvi me tornar. Talvez os sentimentos despertem nossas fraquezas, aquilo que precisa ser lapidado...
Os sentimentos lindos são assim: nos desequilibram. Não que isso seja ruim. Não é! Aliás, é uma das melhores sensações existentes. Mas, numa bela manhã de sol você acorda sem os pés no chão. Você sabe que aquela pessoa já é importante na sua vida. Você já sabe que ela faz falta, você sente uma vontade incontrolável de sair correndo e dizer isso a ela_ mesmo que já o tenho dito. Qualquer silêncio ou demora, aperta o coração. O ar parece pouco, seco. O tempo é lento e grande como um abismo.
Não quero pensar, só sentir. Será que consigo, enfim, conforto sem os pés no chão?


Da desordem do meu mundo imaginário, sobra sempre o momento de acordar. Num sobressalto, eu abro os olhos sem saber por onde andei. Mais uma vez, criei a dor onde ainda não havia amor. Idealizei aquilo que o outro não pode ser. Esqueci que meus sentimentos ecoam, mas não contagiam. Não são parasitas. São livres...


Nas minhas ilusões, os amores são impossíveis, inexplicáveis ou inexistentes. Mas, não é assim que quero seguir, se há encontros neste mundo onde você se reconhece em alguém e outro na sua presença e essência... Se o seu cheiro desperta a fúria, pode despertar paixão também. Se quem te odeia chora pela sua existência, quem te ama pode sorrir. Hoje o tempo chora e eu nem sei porque. Sendo uma sugestão, prefiro evitar. Sendo espelho, não quero ver. O que reflete em mim não precisa ser dor. Quero que seja esperança. E o amor, possível e inevitável.


Você invadiu o meu mundo e tudo virou do avesso. Meu olhar não é mais o mesmo sobre as coisas cotidianas. Minhas idéias se misturam. Não partilho mais o certo do errado, o presente do futuro, o que sinto e o que penso. Minha vida, hoje, é feita de partes que flutuam, mas não se esbarram. Ela é um caos harmonioso e ritmado, pois se rearranja e se desfaz a cada instante. Você tirou tudo do lugar e reinventou onde eu me guardava. Me fez de abrigo, sem pedir licença, enquanto a tempestade não passava. Agora quer construir em mim uma varanda com vista pro mar. Como posso negar-lhe uma parte se você já possui o todo?


Fico aqui pensando: pensar pra quê? Se as melhores coisas da vida foram criadas para nos distrair dessa tormenta de se perguntar sobre a razão de tudo... Quem fica filosofando quando joga futebol, dentro de uma sala de cinema, enquanto mergulha no mar, no meio de uma gargalhada, no primeiro gole de um vinho bom, cantando junto com a música do rádio, dando aquele beijo? Isso é poesia! Querer entender o que se sente é um tempo desperdiçado. Permita-se o inexplicável! O contentamento e o riso, o olhar de quem se ama, aquele dia que parece eterno, a certeza de não querer ir embora... Não vou rasgar o que sinto como se fosse achar razões dentro de mim. A minha alegria está refletida do lado de fora, onde o sol queima a minha pele frágil. Não há cascas, escudos ou armaduras que sejam melhores do que não tê-las.


Se pensa que te esqueci quando estive longe, engana-se em seu julgamento. Num cenário diferente, foi quase inexplicável as vezes que me lembrei de você. O tom do espresso quente deslizando sobre o sorvete de creme se assemelhava a sua pele. Usei a mesma blusa que te ouvi sussurrar em meu ouvindo em um dia feliz. O meu cabelo fazendo cachos que você tanto gosta... Até mesmo o som da minha voz dizendo palavras de um jeito particular com o qual você sempre implica. E se diverte. Até que avistei algo numa vitrine que me fez recordar seu gosto pelas coisas belas. Não resisti em trazê-lo de presente. Uma prova concreta de que em todos os momentos você esteve comigo.

Nenhum comentário: