sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal

Amo meus pais,
não pelo de costume,
pela fusão inicial,
pelo atrever-se a dar vida...

Sei que o criador
tem paixão inevitável,
indissolúvel e visceral
pela criatura.

Esta, como parte de si
como fim surpreedente,
que é!
Por tal feito, deve gratidão...

Mas, amor...
Amor se cria.
Se a cria como tal,
olha atenta a sua origem,
Vê além de seu ego umbilical,
fetal, carnal.

Se fui nascida, nata,
suspensão de pureza angelical.
Sorte foi a minha,
de ver luzir
a liberdade contrátil,
o seio frutificado maternal.

Mas, amor...
Amor se cria.
Se a criatura como tal,
vê-se uma,
como paixão de dois.
Vê-se alma esculpida.
Divina obra da natureza!

Existir, como existem pedras
Não há nada mais natural
Existir, como existe o amor,
Não há nada mais monumental!

Respiro, suspiro,
desfruto do aroma da chuva,
pois assim eles se amaram.

Sorrio, sonho,
vivo nas nuvens do tempo,
pois assim eles se alegraram.

Compartilho, celebro,
me emociono com o sol nascente,
pois assim eles viveram.

Amaram, se alegraram, viveram.
Eu!
Amam, se alegram, vivem.
Nós!
Amamos, nos alegramos e vivemos.
Família!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Amiga-vos

Tenho dentro da memória,
em repouso aveludado.
Quase como porta-jóia,
seu rosto emoldurado.

Habitante espaçosa,
não nego que você seja.
Mas jamais declinaria,
tão astuta que sou,
que sua mão estenderia,
eterna e fraterna gentileza.

Se tem em mim,
terras cardinais vastas...
Não foi por invasão, enfim,
foi por me carinhar com suas graças.

Sei que os dias,
entre nossos sonhos declarados.
Já se vão longe,
Ternos, falhos, humanos.
Escancarados.

Cultivamos como flor,
suave, perfumada,
espinhosa, porque não?
Nossa amizade encantada.

O tempo nos enlaça,
um avesso de ilusão!
Já nem sei mais como seria,
A vida!
Sem essa nossa união.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Desejo uma paixão tranquila.
Emoção no lugar da ilusão.
E a euforia reinventada em profunda alegria.
Amor em estado de graça.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Infernal

Rio, filial.

Matriz, inferno.

Do céu absoluto,

azul interminável,

veem-se pequenos flocos,

como neve no inverno.

É chuva do ar,

nós, condicionados,

a respirar.


Flores nos vestidos,

nos jardins.

Eles espiam.

O vento, cúmplice.

Tempestade?

Não, saias voadoras!


O sol, onipresente.

O suor amolece,

nos faz brilhantes.

Irradia divina luz

incandecente.

Derrota os espíritos.


A praia, refúgio.

Oásis alucinante.

Generosa, indomada.

Euforia lascinante.

Os brotos desnudos,

germinam da areia clara.

Sem raízes, sem chão.

Apenas o momento.

No mar a sede jaz.

O peito dilata,

suspiro salgado,

espumante.


À noite,

dilui-se o rastro.

Impiedoso,

o calor não cessa,

nos consome.



A vida

A vida gira,
dá cambalhota,
desvira os rumos,
ruma incauta.
A vida grita,
“eu sou humana!”
e chora de vergonha.
A vida chama,
acolhe, ama,
e depois vai embora.
A vida muda,
se cansa, se mata,
se deixa num instante.
A vida segue,
faz milagres, sorrisos,
faz o que der vontade.
A vida migra,
mingua, morna,
derrete em poça.
A vida cala,
sente a ferida,
deixa ir o tempo.
A vida se zanga,
jura que agora,
nunca mais.
A vida enxerga,
clama por verdade,
por esperança.
A vida muda,
se mexe, catapulta,
é severa.
A vida é materna,
volta e meia,
desmonta e perdoa.
A vida revive
das cinzas,
da palheta das cores.
A vida reflete
nosso ordinário desespero,
nossa solidão.
A vida realça
o bom
e o mal também.
A vida se mostra,
se esconde,
se vê e não responde.
A vida é líquida,
embriagável,
vício terrível.
A vida é básica,
sua, sente frio,
cansa.
A vida completa
ciclos, giros,
retornos precisos, preciosos.
A vida volta,
e continua
não por deixar,
mas por querer.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Desencontro.

Você teve em parte o meu corpo,

nem meu corpo inteiro.

Você teve meus pelos eriçados,

até minha pele quente.

Você teve alguns momentos,

minha boca úmida.

Você teve frações do meu olhar,

meus olhos fugidios.

Você teve suas mãos,

meu corpo liquefeito.

Você teve seus desejos,

minha mente distante.

Você teve suas dúvidas,

minhas certezas distorcidas.

Você teve um encontro,

eu tive uma fuga.

Você foi tão distraído,

eu queria não saber.

Você foi um lapso de tempo,

eu fui a sua espera.

Você sabe dizer outra vez,

eu penso que... talvez.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Tapete furado, poeira de gente


Tapete furado
Céu do Sul
Distância
Visões de rachaduras
Buracos.

Acima só há luz
e o pouco que vemos se eleva
Rasgos cadentes abrem espaços na trama emaranhada da luz.

Astros são rombos
Lua e Sol, fendas sem costura
Astros são rasgos
gastos de muitos cometas passados
Aqueles que romperam o tapete
para a luz da alegria invadir
Sem licença,
invade, alegra e traz esperança
Espera de encontrar
a alegria que se revela
à quem está debaixo do tapete
como uma poeira
como uma sujeira
como uma prisão
como esconderijo da luz.

Quem olha pra cima na verdade enxerga o que está em baixo
E os rasgos só são vistos quando se olha pra frente!!
Quando, alinhados, estão os olhos, o nariz e a mente...

(autora: Thais Coutinho - às duas da manhã, a bordo do voo indo para São Luis do Maranhão...)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mulher, como a lua.

Mulher, como a lua, não vive um mês, vive um ciclo. O primeiro dia, renasce e, pelos próximos treze vai ganhando luz, tem sua silhueta preenchida pouco a pouco, como um registro fotográfico da aparição de um sorriso. Olhos brilhando, cabelos macios e pele de pétala de rosas: tudo convida ao pecado, ao deleite. E no auge da sua paixão, cheia da própria beleza, ela esmorece devagar. Antes plena, agora constrói em dez dias um dessorriso, uma sombra inevitável. Um desalento destemperado e voraz que cresce e devora os olhos, a pele, o cabelo... Traz essa dor de carne ferida por dentro. O mundo vai sumindo até que não sobra nada, nem essa sensação de ventre fertilizado. O corpo aborta a escuridão das entranhas. A lua se encolhe e repousa, ninguém a vê. Depois ressurge numa estreita promessa de sorriso. Segue seu destino de sempre ir embora só para voltar e brilhar ainda mais...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O 12 é perfeito.

Eu não escolhi o dia do meu nascimento, foi ideia da minha mãe. No dia 12, um médico intrometido invadiu minha praia e me tirou da tranquilidade da minha água quentinha. Nem chorei, só de raiva. De castigo, levei uma palmada e tive que reclamar para não me confundirem com um saco de pancadas de quase 4kg. Minha mãe escolheu essa data por achar bonita, sem saber que esse número tem significados mais profundos. Dizem que é o símbolo da perfeição, o equilíbrio entre o masculino e o feminino. Mamãe mandou bem, já que sem saber me desejou uma vida equilibrada e perfeita. Mas, só esqueceu de um detalhe: nascendo em setembro, qualquer um corre o sério risco de acabar sendo regido pelo signo de virgem. Não que eu tenha algo contra, quer dizer, como típica virginiana, sempre tenho alguma crítica pra fazer, mas não vem ao caso. O problema foi juntar a numerologia e a astrologia e jogar em cima da minha cabeça. Só podia deixar sequelas... Para completar, meu mapa astral tem como título “A busca pela sabedoria”.
Uma pessoa que nasce no dia do equilíbrio, sob o signo da perfeição, com uma vocação pela busca da sabedoria não pode ser uma pessoa normal. Tenho muitas qualidades que não reconheço, muitos defeitos que supervalorizo, muito conhecimento que sempre parece insuficiente e muita dificuldade para entender porque as coisas não funcionam quando tudo parece tão... perfeito. Milhares de pensamentos contraditórios e aleatórios tanto infernizam quanto me trazem boas reflexões. Dos dois efeitos, transformo tudo em texto, ou quase tudo, para aliviar a pressão intracraniana. Acabo falando muito também, os amigos que o digam. O melhor desse pensar no stop são as crias: piadas, trocadilhos infames e muitas risadas.
Pois é, para sobreviver a essa vocação para a neurose, tive que me tornar uma pessoa compreensiva com a elasticidade do universo e com a aleatoriedade da vida para enxergar perfeição no que é mutável. Estou buscando o equilíbrio de poder enxergar o mundo como uma obra de arte em movimento. E me inserir nesse fluído cósmico, misterioso, vacilante que me apavora e me fascina. E como ninguém é perfeito, resmungo de vez em quando, fico irritada, tento dá um pontapé na bunda do universo pra ver se ele se move à contento. Bobagem, ele sempre mostra a bunda pra mim, dá uma careta e ignora minha patética tentativa de controlar seu tempo. Eu acabo achando graça da minha teimosia, sempre...
Sentimentos, esse meninos levados. A gente nunca sabe o que eles vão aprontar...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Meu espelho,
a vida levou,
a saudade pisou.
E minha alegria recriou.

Deixei ela ser
a felicidade que já me habitava,
mas não me decorava.

Agora, as luzes estão acesas,
a porta pintada de cor berrante.
E nas janelas,
correm leves cortinas
do amanhã muito melhor.

Alexandre Soma.
http://www.cromossoma.com.br/

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Seguimos juntas.

Sou amiga do tempo.
Sei do que gosto, do que não gosto.
Sei o que quero...
Só não sei quando.
Onde e com quem.
Tudo é surpresa e previsível.
Aleatório e óbvio.
Emocionante e banal.
Gosto de pensar e fingir que não sei.
Brinco de faz-de-conta.
Não levo dúvidas à sério.
Elas são irônicas, engraçadas.
Posso rir com raiva.
Posso achar graça nenhuma.
Posso encontrar nada.
Ainda sim é resposta.
Do nada, do branco.
Nascem todas as cores.
Eu zero meu querer.
E depois quero de novo.
Muito, tudo, sempre.
Outra vezes,
Outros tudos,
Outros sempres.
Eu sigo a vida.
A vida me segue.
Seguimos juntas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

"_Como alguém aprende a fazer poesia?

_Caminhe pela encosta, preste atenção a todos os detalhes que as metáforas surgirão naturalmente."

(O carteiro e o poeta - filme)

Vestígios

Porque?
São ângulos que engolem meu pouco e nossa parte.
Marcas de batom num guardanapo esquecido, molhado, que numa fatia da vida cala o momento, descuida...

Uma lágrima?
Desce e refresca-me sem querer como memórias de pureza.
Um beijo e sua cabeça em meu peito, um encaixe, uma viga da vida que balança todos os dias, terremoto...

Vaidade?
Tenho quando te faço rir enquanto flutua no céu da minha boca.
Despe minha reta, seja minhas curvas, minha pobre saliva, uma parte do meu tempo, um dia...

Pouco?
Uma fatia da procura de onde estamos, de onde viemos.
Legítimo acaso que me faz comida, que engole meus dias, leva a roupa suja e toca a sola dos pés...

Vestígios?
Quando ri de meu resto engrossa os cílios da minha noite e marca-me como uma música.
Moldes de tempestade, um orgasmo, febre, eu e minha fatia, minha picada de vida.

Alexandre Soma.
http://www.cromossoma.com.br/

sábado, 10 de outubro de 2009

Momento pára-choque de caminhão.

O amor é como uma viagem de ônibus para a Bahia: antes de chegar no acarajé, tem muita parada pra fazer lanchinho no caminho.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Qual o seu melhor defeito?


Noutro dia pedi a uma amiga que listasse meus principais defeitos e minhas principais qualidades. Ela não só listou, como também explicou cada uma dessas características, apontando o lado positivo e negativo de cada uma delas. Ela sempre acreditou que tudo tem um lado bom e um ruim. Eu, hoje em dia, entendo isso e concordo com ela.
O que mais me chamou atenção foi o determinismo: a principal característica das pessoas racionais. A busca incessante pela explicação lógica, pela razão científica, pela crudez dos fatos. Mesmo que essa maneira de agir não gere bem-estar, o determinista mantém a linha de raciocínio nem que seja pelo prazer de provar que estava certo. O que acaba incluindo no pacote determinista, a pretensão de brinde.
Quando ela, que me conhece há dez anos, me disse isso, eu fiquei muito feliz por perceber como melhorei ao longo desse tempo. Como fui abrindo espaço na minha mente e na minha vida para coisas que não tem explicação lógica, fui deixando de me preocupar em ter razão e comecei a investir em ser feliz. Claro que ainda tenho um “quê” de querer entender o universo que me cerca, mas de um jeito curioso e mais saudável agora. Faz um bem danado se dar conta que nossa função no mundo é saber que não devemos ter uma função e sim apenas percorrermos nossas existências tão singulares. Ao invés de função, acredito que temos importância. E ser importante para si mesmo, para alguém, alguns e para o mundo demanda muito mais que entender porque a água cai do céu ou porque o coração bate sem parar. Tão enriquecedor como saber essas respostas, é sentir as gostas de chuva tocando a pele, o cheiro da terra molhada, o toque das mãos de alguém que se ama junto de você. E o coração pulsando de alegria e encantamento. Entender a vida e vivenciar o entendimento.
Se meu maior defeito é querer entender tudo, minha maior virtude tornou-se a capacidade de entender que isso não é tudo.

O que você quer ser quando crescer?

Alguns vão dizer que você está ficando velho, pra desafiar seu estado de espírito. Mas você está se sentindo tão leve... O telefone toca o dia todo, as mensagens chegam e cada uma dessas palavras são ingredientes de uma infalível receita de juventude. Você vai receber carinho, abraços e notar que alguns te esqueceram e outros foram esquecidos por você. É hora de reatar amizades ou perdê-las pra sempre. A gente se perde com o tempo... Há os que te querem bem, mesmo em silêncio. Pare para ouvi-los também. Vale à pena. Talvez você ganhe bombons de uma amiga ou um livro do namorado. Não há regras. Sentimentos não vêm embalados pra presente. Nesse dia, a pessoa mais importante pode nem aparecer. Pode nem se lembrar que aquele dia é o dia. E nem por isso ela gosta menos de você. Ela pode ser distraída e comprar o sapato no número errado. Ou, na pressa do dia-a-dia, esquecer que você não fica bem de amarelo. O que eu duvido é que ela deixe de pensar em você um só dia do ano. Quer coisa melhor que isso? Se os implicantes estão errados e você não ficou velho, é provável que você queira da sua mãe aquele bolo delicioso que só ela sabe fazer. Quem sabe você passe a tarde inteira fazendo brigadeiro e enchendo bolas. Senão, podem estar preparando tudo sem você saber. Aposto que no momento da surpresa, até chapéuzinho você vai usar... É irresistível! Mesmo que resolva sair e passar a noite num bar, não vão faltar pessoas a sua volta cantando “aquela musiquinha” e rindo da sua cara vermelha de vergonha. A cada ano, temos um dia especial quando o mundo conspira a favor da nossa alegria. Neste dia, a gente pode ser o que quiser. Ser criança é uma das escolhas mais freqüentes. E mais felizes.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O coração é o alarme dos pensamentos. Ele dispara ao menor sinal do amor.
Se minha vida fosse um gráfico, seria um ECG!!!
Um EcG!!!
Um EcG!!!
Um EcG!!!
Um EcG!!!

Agradeço



Agradeço minha saúde boa que só vendo! Físico ok, funções vitais ok, emoções se rearranjando neste fim de ciclo de nascimento. Mesmo os dias de incerteza, as dúvidas e minhas decisões que, certas ou erradas, foram minhas. Responsabilidade minha, mérito meu também. As minhas iniciativas, as boas respostas, as respostas que não vieram e as soluções que eu nem notei conseguir. A persistência de seguir os meus desejos e as lágrimas quando eles pareceram não ser realizáveis. Alguns ainda parecem... E eu continuo.
Agradeço os fins, os rompimentos, os laços desfeitos, as declarações honestas e as alegóricas. Os começos delirantes, excitantes. Os percursos embriagantes. A constância, o aleatório. As decisões felizes, os desejos possíveis. O bem-querer mais revigorante. Os olhares doces, os olhares perdidos, os olhares viciantes. O perfume do amor disperso no vento, deixando os poros, embaçando as janelas ao meu redor. Os sorrisos, os beijos, milhares de abraços carinhosamente doados. Os dias solitários e necessários. As desilusões e as chances que me concedi de acreditar que as coisas e as pessoas podem mudar.
Agradeço as viagens que fiz, o sol que corou minha pele, as trilhas que exauriram meus músculos. As pessoas nas fotografias e no coração. As malas feitas e desfeitas. As roupas sujas de lama, as roupas macias com cheiro de casa, as roupas novas que adotamos pelo caminho. Cada minuto de estrada, cada sorvete derretido e cada vinho que me embriagou de alegria. O mar ondulante e salgado. A água gelada da serra, o ar frio nos meus pulmões, minhas mãos geladas, minhas bochechas vermelhas. A paisagem que sempre me faz pensar “Se o céu fosse verde e as árvores azuis?”. A chuva da qual escapei algumas vezes, as festas nas quais me perdi na multidão.
Agradeço a existência da amizade. Meus amigos, queridos amigos de tantos anos. Eles que tem o dom de me fazer acreditar que tudo vale à pena. Meus irmãos por escolha, meus companheiros de aventuras, minhas amigas confidentes e confiáveis. O amor carinhoso que me dedicam e que eu dedico a eles. O amor da afinidade de vivermos as mesmas aflições e desejarmos o mesmo futuro feliz.
Agradeço àqueles que me doaram a vida, o sangue que me permeia, essas células programadas para se multiplicarem até a exaustão. As pessoas que são meu berço, meu caminho, meu caráter, meus valores. Minha família que vive o tormento típico de procurar o equilíbrio entre me estimular a crescer e me proteger do próprio crescimento. As pessoas mais vitais, o vínculo mais incrível que eu pude ter. O laço mais macio e forte existente em todo o universo que eu conheço! E, quem sabe, dos universos que não conheço também. Esse amor infalível! Os pais que são paz e o irmão, minha outra metade de vida.
Agradeço poder agradecer com palavras escolhidas com carinho e combinadas para agregar valor à beleza deste mundo doido. Ter conhecimento suficiente para combinar saberes e memórias num texto simples, mas sincero. Poder olhar para as minhas próprias palavras e saber que por elas alguns olhares atentos e curiosos vão passear.
Obrigada.

Três décadas de pensamentos.

Meus pensamentos se espalham pelo quarto como roupas que transbordam do armário bagunçado. O que devo vestir, o que devo guardar, do que devo me livrar de uma vez por todas? Talvez quando pensamentos novos chegarem, eu possa me despedir de outros tão costumeiros quanto inúteis. Mas todos parecem tão familiares, mesmo os surrados, esfarrapados e que não cabem mais em mim... Foram meus um dia e ainda estão aqui, afinal de contas. Eles mostram pra mim suas etiquetas vencidas, suas cores fora de moda como me dizendo “o que ainda faço aqui?”. Nem mesmo eu sei... Hábito, apego, necessidade? Enquanto estão forrando meu chão de ideias, ainda os tenho como base. Se abro as portas e esvazio as gavetas, as prateleiras e atiro os cabides pela janela, o que me resta senão um vazio irracional e confuso. Creio ser melhor pra mim arrumar as peças, separa-las em pilhas que fazem sentido e depois me dispor a sacrificar aquelas que não me pertencem mais. Deixo o quarto arrumado, aparentando espaço demais e começo a pensar o que sinto, o que vejo, o que quero. Talvez precise mesmo de espaço! Não é fácil organizar um quarto que completa três décadas sem algum sacrifício. Nesse cômodo limbo vou deixando uma existência infantil para tentar descobrir como é crescer sem perder aqueles tons mais singelos. Abraçar as cores quentes e desafiadoras, sem esquecer daquele vestidinho florido que me fazia parecer uma personagem de uma pintura impressionista. Ser real e ser humana.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Desilusão

A desilusão é um entorpecente bastante eficaz. Limpa a mente, esclarece as ideias, nos faz pensar de um ponto de vista mais neutro. Não há emoções intensas envolvidas. É um torpor silecioso onde se ouve apenas a própria voz te perguntando “onde estava a sua cabeça?” A gente nunca sabe. Estava recheada de fantasias românticas, de expectativas sem fundamento, euforia apaixonada? Talvez um pouco de cada.
Sei que desiludidos veem tudo com seriedade demais. Qualquer cena de amor num filme parece algo incompreensível e ilusório. Não se pode compartilhar a emoção nos olhos daqueles personagens apaixonados. O envolvimento amoroso visto nos casais pela rua parece exagerado e coreografado para parecer belo e colorido, fazendo você se sentir em preto e branco. Nem se consegue ficar mais triste. Já passou. Ficou só uma apatia que nos protege de impulsos precoces de apaixonamento, até que estejamos reestruturados pra tentar de novo...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O quanto os sentimentos intereferem no julgamento?

Você se sente linda, radiante, pronta pra se apaixonar de novo. Mais que isso, você deseja se apaixonar de novo, sentir o coração aos pulos, esperar os telefonemas, os reencontros, os bejios... Tudo parece muito empolgante. Então, você conhece um cara. Ele te elogia, faz cara de quem está encantado, é gentil e aguarda o momento certo para dar o primeiro beijo. Pode ser que o beijo comece meio desajeitado, mas depois ganha uma fluidez perfeita. O abraço é aconchegante, o cheiro dele é muito bom. Você não quer ir embora nunca mais.

Ele te liga de novo, vocês começam a se ver sempre. Rola intimidade e as declarações dos apaixonados sedimentam o início do relacionamento, certo? Talvez pra você sim. Mas ele logo começa a não ligar, aparece quase nunca e um belo dia, quando você diz que não quer mais, ele diz que te ama, mas não quer se comprometer. Essa contradição permite duas interpretações: ele está mentindo ou ele não sabe o que quer.

Dizem que as mulheres acreditam no que querem acreditar. Se iludem porque querem se iludir. Eis uma boa forma de se eximir da culpa. Em tudo que acontece entre duas pessoas, a “culpa” por qualquer coisa é tão compartilhada quanto os beijos. Se alguém se ilude o outro alimenta a ilusão, se alguém acredita, o outro deu argumentos pra isso. Talvez seja um erro clássico investir e desejar correspondência de sentimentos de alguém que os mantém na clandestinidade para não interferirem na sua liberdade. Mas como ter sentimentos que não interferem nos julgamentos? Como separar o amor ou a paixão que você sente por alguém, de um personagem que ele criou e mantém até onde consegue ir sem se envolver?

Não é justo julgar as pessoas que se apaixonam como ingênuas ou iludidas. São apenas pessoas abertas pra se envolver, amar e não tem medo disso. E exatamente por causa dessa transparência, se expõem demais. O problema é quando se deparam com pessoas que se mantém apenas na superfície. Na tentativa de manter a liberdade, permanecem aprisionadas nas próprias limitações. Medo de se magoar? Acredite, todos sobrevivem. E depois tentam de novo, porque se apaixonar é o que há de melhor!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A verdade

Lendo "Quando Nietzsche Chorou", comecei a pensar na tal busca pela verdade e suas implicações. A sua celebre frase “Torna-te quem tu és” parece simples. De fato, é uma frase curta, direta e objetiva.

Como diante de uma indagação, a resposta mais simples tende a ser a verdadeira, parece que a verdade guarda as mesmas características dessa frase. Mas, quando observo a dinâmica da nossa vida em sociedade, ela me leva a crer que a verdade não seja assim tão generalizada e indissolúvel,. Talvez a verdade seja relativa e particular em muitos níveis de entendimento. Enquanto a rotina nos traz padrões a serem seguidos, as mentes inquietas questionam onde se encontra o nosso lugar individual e verossímil no meio dessas regras. E até que ponto as generalizações representam mentiras e as indagações particulares representam verdades?

Na mesma semana, quando assisti ao filme “E sua mãe também”, acompanhei a trajetória de uma mulher que decide se desgarrar da vida de mulher-casada-traída-pelo-marido-desprezível para embarcar numa aventura sem preconceitos ou questionamentos de futuro. O problema é que ela só resolve se deliciar com escolhas improváveis porque sabe que sua condição de saúde é deteriorante e resta a ela pouco tempo de vida. Então, ela resolve viver uma verdade alternativa àquela de toda a sua vida e aprecia momentos prazerosos nos quais ela parece sorrir de verdade, em oposição clara a sua expressão de desilusão no início do filme. Ao final da história, fiquei imaginando quem seria aquela mulher. A resignada do início, a desgarrada do final? Ou conteríamos essas facetas variadas dentro de nós, o que nos tornaria tão interessantes e complexos em nossas próprias verdades? E porque situações críticas costumam ser as únicas alavancas para buscarmos novas perspectivas, aquelas do tipo que fazem nossa vida parecer uma mentira?

Talvez o “Torna-te quem tu és” não seja tão simples assim, porque saber quem somos não é uma resposta curta, direta e objetiva. Prefiro seguir a linha “Torna-te aquele que é feliz”, uma forma mais ampla e menos opressora de buscar a si mesmo, estando nós mergulhados na rotina ou nas histórias de aventura; no rigor das divagações teóricas ou no aconchego da filosofia de botequim.

domingo, 16 de agosto de 2009

Dúvida.

Falo muito sobre sentimentos...
Me pergunto se eu realmente acredito no amor...
Talvez falar seja uma forma de materializá-lo!

sábado, 8 de agosto de 2009

No interior, o dia leva uma vida. Na cidade, a vida leva nossos dias.

Faz algum tempo, ando me perguntando sobre o sentido da vida. Tenho um amigo que diz que eu tenho preocupações de pessoas com 10 anos a mais de idade que eu. Engraçado porque minha mãe sempre disse que eu sempre fui mais velha que minha idade cronológica. Minhas indagações constumam vir muito antes dos fatos da minha vida me gerarem dúvidas, como se eu me antecipasse. Me pergunto se isso não seria uma maneira de me sentir mais segura...
Ando testando meus quereres. Não é nenhuma novidade, mas me refiro a saltos maiores. Estou experimentando a vida no interior. Ritmo mais lento, ambiente mais saudável, o tipo de lugar que você anda pela rua e todos se comprimentam. Acho isso acolhedor. Me encanta como sobra tempo para colher flores e fazer um arranjo pra enfeitar a casa. Há uma flor vermelha e amarela que despenca ainda bonita. Coloco algumas num copinho verde, fica lindo! Gosto muito também de caminhar pela rua, pegar uma tangerina no quintal alheio e ir comendo feito criança travessa. Quando olho pela janela e vejo poucas casas e muitas árvores, sinto-me renovada e de certa forma protegida. O ar é muito puro e faz muito frio às vezes. Eu adoro! No verão faz calor suficiente pra tomar banho de rio, no inverno faz frio suficiente pra você querer ter uma lareira em casa e um estoque de vinho. Gosto dessa coisa de deixar a bicicleta no quintal e não me preocupar se alguém vai roubar. Gosto da sensação de andar pela rua e não me sentir ameaçada. Ser assaltada é uma experiência muito desagradável, assim como qualquer tipo de violência. Quando estou nas ruas lotadas do Rio me sinto muito frágil. Detesto essa sensação de isca de tubarão.
Costumava enxergar o interior como um lugar de passeio, mas ando repensando meu referencial. Me ponho em teste pra saber se há na cidade mais ou menos atrativos pro meu dia-a-dia. É uma espécie de comparação pra ver onde há mais coisas essencias pra minha vida. Onde houver menos, faz sentido que seja escolhido como local de passeio. Aliás, encontrar cachorros fofos, passarinhos e flores dos mais diversos tipos no caminho para a padaria deixa o dia bem mais bonito. Alguns podem até dizer que com o tempo a gente se acostuma e tudo deixa de ser especial, passa a ser rotina. Acho que pode ser verdade, embora ter uma rotina dessas seja mais agradável do que uma rotina de engarrafamento. Claro que a vida na cidade não é feita só de mazelas. Sabemos os atrativos, vantagens e facilidades oferecidas por um cotidiano cercado de opções de lazer, pessoas, cultura e tudo mais que há numa cidade como o Rio. Da mesma forma me pergunto se todas essas possibilidades não seriam uma maneira de aliviar a sensação de isolamento a que essa vida metropolitana nos remete... Algo a se pensar.
Em momento algum penso em radicalizar e virar um bicho-planta, como diz meu irmão. Busco apenas reflexão e alternativas. Desejo o conforto da sabedoria de que a vida pode ser várias numa só, que podemos mudar de ideia, de endereço, de estilo de vida e continuar sendo a mesma pessoa. Cidadão do mundo ou interiorano, acredito que somos várias possibilidades numa pessoa só.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Você foi o mais doce desatino.

Um romance desvairado!

Um finito sem destino.

Um sem fim desacreditado.


Você foi mais um experimento.

Da minha alma-cientista.

Em busca do amor: o sentimento!

Do qual sei mais a teoria.


Despi-me do manto branco.

Há muito já esfarrapado, furado, ferido.

Dei-me ciência e me espanto!

Ficou, pelas horas, o sonho despercebido.


Como se prova tanto da vida

Com tal fome e voracidade.

Para encontrar a si mesma.

Tão longe da verdade?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A casa que nos assombra.

Casa nova, recém-construída, vazia. Só há o chão, o teto e um punhado de paredes arranjadas de uma forma a nos dar um sentido de lugar pra viver. Um espaço estéril, imaculado que nos dá a sensação de falta de vida. No momento em que você entra num dos cômodos e toma um café comprado na padaria da esquina, quentinho e olha pela janela, aquele não é mais um espaço sem história. Agora é um canto de vida que um dia abrigou os pensamentos de alguém que saboreava seu primeiro café no novo lar! Se você esbarra no copo e o café caí no chão, fica ali a marca e o momento registrados, a cena permanece como um holograma que se repete até se perder no tempo.

A vivência cotidiana ou momentos inesquecíveis vão preenchendo o conteúdo destas paredes com vida até que não haja mais espaços para espaços vazios. Tudo o que aconteceu, o que se passa agora ou o que se deseja para o futuro coexistem num espaço-tempo de energia impossível de ignorar. A casa perece cheia, mesmo quando só tem você! Mesmo quando não tem ninguém. É como um caderno em branco onde contamos nosso dia-a-dia. As palavras permanecem...

Já as casas antigas podem ter um ar esmagador e sufocante, às vezes sombrio. Ou mesmo saudoso. Jamais puro. Jamais vazio. Quando dizemos que um lugar conta uma história, é verdade. É só parar pra ouvir. Talvez seja por isso que muitas casas são ditas como mal-assombradas. Pode-se sentir os tempos se sobrepondo e essa sensação pode refletir nossos maiores medos. Os temores são sentimentos muito particulares e criativos. Eles podem usar muitas fantasias para nos assustar: um ranger de porta, uma sombra estranha, um ruído pouco familiar... A imaginação ganha força e acabamos vendo e ouvindo coisas que, aparentemente, não existem. Ou será que existem?!

O início do fim.

As melhores histórias deixam a amizade como herança. Além de você ter vivido momentos bons e se encantado com experiências novas, no fim você pode andar tranquilo pela rua. Se você esbarrar por acaso ou encontrar aquela pessoa que fez parte do seu dia-a-dia, não há constrangimento. Você olha pra ela de cabeça erguida, sorri e acena ou pára pra dar aquele abraço saudoso demonstrando o quanto aquela pessoa faz falta. Já que o fim é dolorido, melhor que seja amigável e honesto.

O ínicio do fim acontece quando a gente tem que reorganizar nossa rotina que acaba ficando entrelaçada com aquela pessoa. Você tem que lembrar que não vai mais chegar mensagem de boa noite no celular antes de você dormir. Se você estiver na varanda, olhando a rua, não vai mais ver alguém chegando naquele horário de sempre. Não vai mais implicar com aquela blusa que ele não tira do corpo e nem vai mais vê-lo fazendo caretas porque você demora pra se arrumar. O jeito de olhar, de beijar que são únicos de cada pessoa, vão se diluindo na memória. O sabor e o cheiro, antes tão familiares e sedutores, vão perdendo o vigor e desbotando como a imagem dos dois juntos. Mais tarde, é provável que os lugares que costumavam ir ganhem novas lembranças. Serão sempre lugares especiais, mas o sentimento de estar neles não será mais o mesmo.

A gente começa a se enxergar preenchendo sozinho todos os espaços que antes eram compartilhados. E nos lembramos que somos capazes de fazer isso. Na varanda, você olha as estrelas e conversa com um amigo sobre o dia divertido que tiveram. À noite, ouve música no celular até dormir. E começa a reparar nos encantos de outras pessoas interessantes que aparecem pelo caminho.

Quando essa reorganização não dói mais, estamos livres e prontos pra começar de novo. Outra história, outros dias compartilhados, outras possibilidades de sermos felizes.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Amizade

Ontem acordei cheia de sono, meio cansada. Bom, saí pra farra na sexta e voltei às 2:30, óbvio que me sentiria assim. Ainda inventei de fazer o almoço pra mim e minha mãe. Valeu à pena, a massa ficou maravilhosa. Aproveitei o cansaço e também varri a casa. Insana! Mas na hora de sair, não pensei duas vezes. Mesmo com uma vontade incrível de comer e dormir, eu me arrumei, catei os presentes e sai determinada. Me controlei pra não dormir no ônibus. Imagina se eu perco o ponto...
Durante a viagem, custei a entender o que era aquilo tudo. Eu ali sozinha no ônibus, aquele silêncio, a demora e aqueles embrulhos no meu colo. Parecia tão solitária a minha jornada... Quando estava quase chegando no shopping, ouvi o sinal de mensagem do celular que me despertou do transe. Vi a mensagem da Renata e já sorri. As coisas começaram a fazer algum sentido. Caminhei pelos corredores do shopping ainda à procura de uma conexão com aquele momento e, de repente, vi bracinhos ansiosos sinalizando o caminho. Sorri de novo. A Renata com aquele sorrizão dizendo "amiiiiiga" e o cumprimento de praxe: abraço de amiga, daqueles inconfundíveis e a certeza de ter chegado no meu lugar. Alguns minutos de papo e avistamos a Carol chegar com seus fragmentos estéticos vermelhos e o Caco perto do coração. Ela sempre com aquela carinha de caçula da casa, aquela que chega de mansinho em festa de adulto, se espalha no sofá e pergunta se não tem uma música mais legal pra tocar... Mais sorrisos e um abraço de "quem te entende do início ao fim..." Depois de alguns minutos, o lugar em si já não tinha mais importância. Poderia ser qualquer um porque eu me sentia invariavelmente em casa. Aquela solidão da viagem, aquele silêncio estranho, aquele sono de noite pouco dormida... Tudo reduzido a pó, fulminado pelos sorrisos. Em algum momento a caçula nos lembrou de mudarmos de ares.
Passeamos pelo lugar seguindo certo código de aproveitar o espaço e o tempo, mas na verdade, o melhor lugar é aquele onde sentamos diante de uma mesa com comidinhas gostosas, algo pra beber e toda aquela afinidade pra desfiar em palavras cantadas por nossas vozes tão familiares nossos sonhos e desamparos. A Thaís seguiu a tradição de um eterno estar a caminho e ser avistada de longe sorrindo um sorriso de travessura, daquelas que a mãe já reclamou mil vezes. Mas ontem ela foi a última a sair da festa. O café pós-existencialismo woodaleneano em Barcelona foi filosófico! E assim terminamos o nosso dia de Natal...
Naquela mesa do Bistrô tive uma sensação difícil de explicar. Eu olhava pra elas, falava com elas e tudo parecia tão natural e reconfortante que poderia jurar que elas estiveram sempre na minha vida. Porque mesmo que os laços que se tem com a família sejam indissolúveis e extraordinários, nós quatro nos identificamos como pessoas que, embora não sejam unidas por consanguinidade, tem umas pelas outras a fraternidade mais bonita de todas: aquela fruto da liberdade! Estamos sempre entre os prós e os contras, cultivando a presença voluntária uma da outra. Parece um vínculo frágil, mas não é! Escolhemos estar juntas e sermos irmãs nesta vida que nos desafia e encanta. Esse sentimento nos fortalece e acredito que nos dá uma linda esperança de que se é possível escolher em quem confiar e ter a confiança como resposta, então tudo de bom é possível. Na minha pouca experiência, posso dizer que esse estar feliz incondicional que a presença delas me traz só pode ser chamado de amor, como bem disse a Renata.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Homenagem ao artista e irmão.

Gosto de me lançar sem medo, seja num sofá ou em abismos obscuros. Por tempos, preferi, dentre todas as cores, o cinza. E nas cinzas dores do meu caminho me findei e reiniciei minha arte e meus tormentos repetidas vezes. Porque eu ia das cinzas às cores mais chocantes, daquelas que constrangem a retina. (Espera, tive uma ideia!). Meus tons de louco deslocado no tempo-espaço me feriram e fortaleceram. Sangrei nos papéis mais improváveis. Fui muitas vezes catapultado pelos meus próprios experimentos tão visionários quanto incompreendidos. Como é cruel enxergar a paleta de cores da vida sozinho! A arte me desenhava um contorno de isolamento. O nanquim era sombrio, fechado e angustiante.(Espera, tive uma ideia!). Mas a expressão das ideias acontece no contraste luz/escuridão. E num movimento circular de continuidade, tao escuridão se dissolveu no seu complemento iluminado. Vi as difrações do meus ousados e genuínos quereres pondo-me num interrogatório onde regurgitei meu gênio das cores e voltei a sorrir. Não como tolo, e sim, satisfeito de voltar a acreditar no poder de ser eu mesmo sem perder o vínculo com o real criado por aqueles de alma estreita e mente sã demais.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Inquietação.

A inquietação não o permite calar, pensar ou agir. Espera-se por respostas sem hora pra chegar. O tempo se rasteja e aquele que aguarda se contorce. Até onde a espera é um ato de covardia ou de sabedoria? Os dias são grandes e cheios, enquanto o inquieto quer mover-se desse vazio progresso. Respostas, tragam um alento de continuidade ou recomeço! Tire-o do drama da impaciência. Livre-o desse tormento!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Apego

Apego: agarrar-se como quem se prende a um bote salva-vidas no meio do mar. Única chance de sobrevivência, única saída. O resto é oceano vasto, mar sem cabelos, água salgada que tira a vida da gente. Alguém que vê o outro assim, se apega às pessoas, não se une a elas. Porque a união tem sua elasticidade. O outro pode ir pro Japão, mesmo assim você sente que ele está perto e você de alguma maneira próximo dele. Vocês estão conectados pela crença de que um faz parte da vida do outro. Apenas isso. Já é suficiente.
Mas se você se apega, você tem o outro como referência única de resgate. Você precisa dele pra viver, pra dar sentido a sua existência como se fosse uma bússola pra um marinheiro. Na falta do outro, você naufraga. Aqueles milhões de litros d’água invadem seus pulmões, te sufocam e ainda assim você não vê as bolhas de ar. Você sequer enxerga pra onde elas estão indo, subindo... Você não quer subir. Você quer estar submerso, no silêncio escuro, úmido e frio que justificam seu apego. Porque se o outro não precisa de você, que função você teria? Se o outro te amar, o que se faz com isso? Não se faz, se vive!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Ele, ela e o tempo.


Gabriel sabia ser feliz. Ir e voltar da escola, ver a namoradinha e estar com os amigos era tudo o que ele precisava. Mas nas aulas de Física, ele aprendeu que a inércia existe mesmo em movimento. Gabriel não cabe mais na idade que tem. Ele, suas idéias, seus quereres desejam a maioridade. O menino quer se despir de ser menino.

Seus desejos conduziram os fatos. Gabriel viajou com a família. Foi pensando na vida e sentiu estar distante de si mesmo. Não sabia ao certo sobre o novo “si mesmo”. Ele ama os irmãos mais novos, embora já se incomode deles parecerem tão infantis. Gabriel reencontra Camila depois de alguns anos passados. Nunca conversaram. Doze anos antes dele, ela nascia. Camila adulta, saudosa da leveza da vida, conversa com Gabriel. Eles falam de ser felizes. Conversam da alegria esmagada pelo tempo e pelas responsabilidades. Ela sabe bem sobre isso, ele ainda imagina. Camila se enternece com a inocência dele. Gabriel admira Camila.

Enquanto assistiam a um filme divertido, Gabriel toca a mão de Camila. Sem saber como agir, ela aceita o afeto. As texturas das mãos se tocando, os dedos se entrelaçando... Nada foi dito, nem se olharam. Mal podiam respirar. As horas seguintes abrigaram gestos, olhares, pensamentos e desejos. Ofegantes, tinham nos lábios um vazio que conduzia um ao outro. O beijo foi inevitável. A doçura foi surpreendente. Camila não acreditou na leveza de estar nos braços de Gabriel. Eles flutuaram por alguns instantes. Eles se fundiram numa calda quente e deliciosa. Gabriel não sabia o que era amar. Camila já havia esquecido. Sob as estrelas, aos pés do mar, Gabriel derramou suas dúvidas pela primeira vez. Camila, gentilmente, ofereceu todas as respostas. Seus olhos se tocavam admirados pela beleza do encontro. Um a obra do outro. Ambos divinos. Não houve abismo de tempo que os separasse.

A viagem terminou e eles queriam seguir em frente. Voltando à realidade do mundo, seus quereres enfrentaram o desdém daqueles que só enxergam o abismo. Camila tentou seguir a vida. Gabriel quis o improvável. Ela com seus anos de vantagem, tentou não amar. Ele, na sabedoria de seus anos de menino, se fez apaixonado.

O reencontro, o cheiro da pele doce e morna, os olhos de desejo, o gosto de céu... Camila perdeu a dureza do juízo e atravessou o tempo. Do outro lado, o anjo de faces rosadas e cachos rebeldes aguardava ansioso. Eles se derramaram e perderam a noção do tempo.

Gabriel sente saudades. O ir e vir da escola, os amigos, o namorico findado... Nada é mais como antes. Ele encontra-se entre Camila e o tempo. Ainda dói o fim do amor pueril. A família se aflige, não entende. A curiosidade brota de seus amigos. Gabriel fica confuso e sozinho. E Camila, linda, fascinante, também poderia ser anjo.Ela sente que se falta ele, falta a alegria. Ela estende a mão delicada e acolhe o menino que ainda não aprendeu a ser grande, embora, de coração e sonhos, já seja imenso. Ele deseja tê-la sempre ao seu lado. Ela sonha com o dia de amá-lo sem o abismo do tempo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tempo injusto, severo.
Tempo que divide o tempo.
Você, uma metade.
Eu, inteira o tempo.
Minutos passeiam por você.
Horas me atropelam.
Sou condenada do tempo.
Você, dele sagrado.

Novos desenhos
Ele traça no meu rosto.
Outra geometria
Ele cria no seu.
Revela meu corpo exuberante.
O seu, a todo instante mutante.

Seus olhos de mel, magnéticos.
Tão doces como o pecado.
Fazem par com seu sorriso.
Generoso e iluminado.

Em seus cachos macios,
semelhantes aos meus.
Minhas mãos me condenam
Aos encantos seus...

Em seu gosto.
de esquecer o mundo.
Eu saboreio a vida.
Como posso
este caminho
me negar a ida?
Nossa casa tem uma janela
que se abre para o mundo.
A desconhecida porta
o inimaginável.
Prova sem retorno
os novos tempos.

Seja amplo!
Acolhe em si
o não saber
e o querer mais.
Dê-me a mão.
Guia-me no caminho estranho
do seu peito.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cuidado com os poetas;
eles enfeitam suas palavras de ilusão.
Suas verdades demasiado belas;
são sereias que te submergem.
Num doce e inebriante;
estado de felicidade.
Que pode te faltar de repente...
Como o ar para os pulmões.
Mergulhe sem medo;
ou evite a beleza.
Como quem não quer virar pedra;
ao vê-la com seus cabelos de serpente.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Sou uma célula.

Sou uma célula com suas organelas produzindo energia para a vida. E como célula evoluída que sou, interajo com outras. Afinal, o que seria de mim sozinha, flutuando por aí neste interstício inóspito? Seria fagocitada, provavelmente! As unidades vivas que permanecem próximas tocam minha membrana e formam ligações estáveis pelas quais trocamos sinais químicos filosóficos sobre nossa existência tão diminuta. Sabemos que o todo é grande à beça e que a correnteza é forte quando ficamos perdidas nos vacúolos do caminho. Maaaas, podemos contar umas com as outras. Isso sustenta, dá força! Formamos um retículo bem tecido e dinâmico no qual mantemos a fluidez, mesmo quando isso não parece possível.

A beleza de ser célula está no fato de saber que não estou só. E por isso, agradeço a cada uma das que compartilham comigo suas pequenas existências, entrelaçando seus pseudópodos com os meus, mantendo essa linda troca de amor constante, pulsante! Estarei sempre aqui com receptores sensitivos ligados em suas dores e alegrias, pronta pra fazer parte de cada micropartícula de momento.