quarta-feira, 13 de maio de 2009

Apego

Apego: agarrar-se como quem se prende a um bote salva-vidas no meio do mar. Única chance de sobrevivência, única saída. O resto é oceano vasto, mar sem cabelos, água salgada que tira a vida da gente. Alguém que vê o outro assim, se apega às pessoas, não se une a elas. Porque a união tem sua elasticidade. O outro pode ir pro Japão, mesmo assim você sente que ele está perto e você de alguma maneira próximo dele. Vocês estão conectados pela crença de que um faz parte da vida do outro. Apenas isso. Já é suficiente.
Mas se você se apega, você tem o outro como referência única de resgate. Você precisa dele pra viver, pra dar sentido a sua existência como se fosse uma bússola pra um marinheiro. Na falta do outro, você naufraga. Aqueles milhões de litros d’água invadem seus pulmões, te sufocam e ainda assim você não vê as bolhas de ar. Você sequer enxerga pra onde elas estão indo, subindo... Você não quer subir. Você quer estar submerso, no silêncio escuro, úmido e frio que justificam seu apego. Porque se o outro não precisa de você, que função você teria? Se o outro te amar, o que se faz com isso? Não se faz, se vive!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Ele, ela e o tempo.


Gabriel sabia ser feliz. Ir e voltar da escola, ver a namoradinha e estar com os amigos era tudo o que ele precisava. Mas nas aulas de Física, ele aprendeu que a inércia existe mesmo em movimento. Gabriel não cabe mais na idade que tem. Ele, suas idéias, seus quereres desejam a maioridade. O menino quer se despir de ser menino.

Seus desejos conduziram os fatos. Gabriel viajou com a família. Foi pensando na vida e sentiu estar distante de si mesmo. Não sabia ao certo sobre o novo “si mesmo”. Ele ama os irmãos mais novos, embora já se incomode deles parecerem tão infantis. Gabriel reencontra Camila depois de alguns anos passados. Nunca conversaram. Doze anos antes dele, ela nascia. Camila adulta, saudosa da leveza da vida, conversa com Gabriel. Eles falam de ser felizes. Conversam da alegria esmagada pelo tempo e pelas responsabilidades. Ela sabe bem sobre isso, ele ainda imagina. Camila se enternece com a inocência dele. Gabriel admira Camila.

Enquanto assistiam a um filme divertido, Gabriel toca a mão de Camila. Sem saber como agir, ela aceita o afeto. As texturas das mãos se tocando, os dedos se entrelaçando... Nada foi dito, nem se olharam. Mal podiam respirar. As horas seguintes abrigaram gestos, olhares, pensamentos e desejos. Ofegantes, tinham nos lábios um vazio que conduzia um ao outro. O beijo foi inevitável. A doçura foi surpreendente. Camila não acreditou na leveza de estar nos braços de Gabriel. Eles flutuaram por alguns instantes. Eles se fundiram numa calda quente e deliciosa. Gabriel não sabia o que era amar. Camila já havia esquecido. Sob as estrelas, aos pés do mar, Gabriel derramou suas dúvidas pela primeira vez. Camila, gentilmente, ofereceu todas as respostas. Seus olhos se tocavam admirados pela beleza do encontro. Um a obra do outro. Ambos divinos. Não houve abismo de tempo que os separasse.

A viagem terminou e eles queriam seguir em frente. Voltando à realidade do mundo, seus quereres enfrentaram o desdém daqueles que só enxergam o abismo. Camila tentou seguir a vida. Gabriel quis o improvável. Ela com seus anos de vantagem, tentou não amar. Ele, na sabedoria de seus anos de menino, se fez apaixonado.

O reencontro, o cheiro da pele doce e morna, os olhos de desejo, o gosto de céu... Camila perdeu a dureza do juízo e atravessou o tempo. Do outro lado, o anjo de faces rosadas e cachos rebeldes aguardava ansioso. Eles se derramaram e perderam a noção do tempo.

Gabriel sente saudades. O ir e vir da escola, os amigos, o namorico findado... Nada é mais como antes. Ele encontra-se entre Camila e o tempo. Ainda dói o fim do amor pueril. A família se aflige, não entende. A curiosidade brota de seus amigos. Gabriel fica confuso e sozinho. E Camila, linda, fascinante, também poderia ser anjo.Ela sente que se falta ele, falta a alegria. Ela estende a mão delicada e acolhe o menino que ainda não aprendeu a ser grande, embora, de coração e sonhos, já seja imenso. Ele deseja tê-la sempre ao seu lado. Ela sonha com o dia de amá-lo sem o abismo do tempo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tempo injusto, severo.
Tempo que divide o tempo.
Você, uma metade.
Eu, inteira o tempo.
Minutos passeiam por você.
Horas me atropelam.
Sou condenada do tempo.
Você, dele sagrado.

Novos desenhos
Ele traça no meu rosto.
Outra geometria
Ele cria no seu.
Revela meu corpo exuberante.
O seu, a todo instante mutante.

Seus olhos de mel, magnéticos.
Tão doces como o pecado.
Fazem par com seu sorriso.
Generoso e iluminado.

Em seus cachos macios,
semelhantes aos meus.
Minhas mãos me condenam
Aos encantos seus...

Em seu gosto.
de esquecer o mundo.
Eu saboreio a vida.
Como posso
este caminho
me negar a ida?
Nossa casa tem uma janela
que se abre para o mundo.
A desconhecida porta
o inimaginável.
Prova sem retorno
os novos tempos.

Seja amplo!
Acolhe em si
o não saber
e o querer mais.
Dê-me a mão.
Guia-me no caminho estranho
do seu peito.