segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Infernal

Rio, filial.

Matriz, inferno.

Do céu absoluto,

azul interminável,

veem-se pequenos flocos,

como neve no inverno.

É chuva do ar,

nós, condicionados,

a respirar.


Flores nos vestidos,

nos jardins.

Eles espiam.

O vento, cúmplice.

Tempestade?

Não, saias voadoras!


O sol, onipresente.

O suor amolece,

nos faz brilhantes.

Irradia divina luz

incandecente.

Derrota os espíritos.


A praia, refúgio.

Oásis alucinante.

Generosa, indomada.

Euforia lascinante.

Os brotos desnudos,

germinam da areia clara.

Sem raízes, sem chão.

Apenas o momento.

No mar a sede jaz.

O peito dilata,

suspiro salgado,

espumante.


À noite,

dilui-se o rastro.

Impiedoso,

o calor não cessa,

nos consome.



A vida

A vida gira,
dá cambalhota,
desvira os rumos,
ruma incauta.
A vida grita,
“eu sou humana!”
e chora de vergonha.
A vida chama,
acolhe, ama,
e depois vai embora.
A vida muda,
se cansa, se mata,
se deixa num instante.
A vida segue,
faz milagres, sorrisos,
faz o que der vontade.
A vida migra,
mingua, morna,
derrete em poça.
A vida cala,
sente a ferida,
deixa ir o tempo.
A vida se zanga,
jura que agora,
nunca mais.
A vida enxerga,
clama por verdade,
por esperança.
A vida muda,
se mexe, catapulta,
é severa.
A vida é materna,
volta e meia,
desmonta e perdoa.
A vida revive
das cinzas,
da palheta das cores.
A vida reflete
nosso ordinário desespero,
nossa solidão.
A vida realça
o bom
e o mal também.
A vida se mostra,
se esconde,
se vê e não responde.
A vida é líquida,
embriagável,
vício terrível.
A vida é básica,
sua, sente frio,
cansa.
A vida completa
ciclos, giros,
retornos precisos, preciosos.
A vida volta,
e continua
não por deixar,
mas por querer.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Desencontro.

Você teve em parte o meu corpo,

nem meu corpo inteiro.

Você teve meus pelos eriçados,

até minha pele quente.

Você teve alguns momentos,

minha boca úmida.

Você teve frações do meu olhar,

meus olhos fugidios.

Você teve suas mãos,

meu corpo liquefeito.

Você teve seus desejos,

minha mente distante.

Você teve suas dúvidas,

minhas certezas distorcidas.

Você teve um encontro,

eu tive uma fuga.

Você foi tão distraído,

eu queria não saber.

Você foi um lapso de tempo,

eu fui a sua espera.

Você sabe dizer outra vez,

eu penso que... talvez.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Tapete furado, poeira de gente


Tapete furado
Céu do Sul
Distância
Visões de rachaduras
Buracos.

Acima só há luz
e o pouco que vemos se eleva
Rasgos cadentes abrem espaços na trama emaranhada da luz.

Astros são rombos
Lua e Sol, fendas sem costura
Astros são rasgos
gastos de muitos cometas passados
Aqueles que romperam o tapete
para a luz da alegria invadir
Sem licença,
invade, alegra e traz esperança
Espera de encontrar
a alegria que se revela
à quem está debaixo do tapete
como uma poeira
como uma sujeira
como uma prisão
como esconderijo da luz.

Quem olha pra cima na verdade enxerga o que está em baixo
E os rasgos só são vistos quando se olha pra frente!!
Quando, alinhados, estão os olhos, o nariz e a mente...

(autora: Thais Coutinho - às duas da manhã, a bordo do voo indo para São Luis do Maranhão...)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mulher, como a lua.

Mulher, como a lua, não vive um mês, vive um ciclo. O primeiro dia, renasce e, pelos próximos treze vai ganhando luz, tem sua silhueta preenchida pouco a pouco, como um registro fotográfico da aparição de um sorriso. Olhos brilhando, cabelos macios e pele de pétala de rosas: tudo convida ao pecado, ao deleite. E no auge da sua paixão, cheia da própria beleza, ela esmorece devagar. Antes plena, agora constrói em dez dias um dessorriso, uma sombra inevitável. Um desalento destemperado e voraz que cresce e devora os olhos, a pele, o cabelo... Traz essa dor de carne ferida por dentro. O mundo vai sumindo até que não sobra nada, nem essa sensação de ventre fertilizado. O corpo aborta a escuridão das entranhas. A lua se encolhe e repousa, ninguém a vê. Depois ressurge numa estreita promessa de sorriso. Segue seu destino de sempre ir embora só para voltar e brilhar ainda mais...