quarta-feira, 22 de julho de 2009

A casa que nos assombra.

Casa nova, recém-construída, vazia. Só há o chão, o teto e um punhado de paredes arranjadas de uma forma a nos dar um sentido de lugar pra viver. Um espaço estéril, imaculado que nos dá a sensação de falta de vida. No momento em que você entra num dos cômodos e toma um café comprado na padaria da esquina, quentinho e olha pela janela, aquele não é mais um espaço sem história. Agora é um canto de vida que um dia abrigou os pensamentos de alguém que saboreava seu primeiro café no novo lar! Se você esbarra no copo e o café caí no chão, fica ali a marca e o momento registrados, a cena permanece como um holograma que se repete até se perder no tempo.

A vivência cotidiana ou momentos inesquecíveis vão preenchendo o conteúdo destas paredes com vida até que não haja mais espaços para espaços vazios. Tudo o que aconteceu, o que se passa agora ou o que se deseja para o futuro coexistem num espaço-tempo de energia impossível de ignorar. A casa perece cheia, mesmo quando só tem você! Mesmo quando não tem ninguém. É como um caderno em branco onde contamos nosso dia-a-dia. As palavras permanecem...

Já as casas antigas podem ter um ar esmagador e sufocante, às vezes sombrio. Ou mesmo saudoso. Jamais puro. Jamais vazio. Quando dizemos que um lugar conta uma história, é verdade. É só parar pra ouvir. Talvez seja por isso que muitas casas são ditas como mal-assombradas. Pode-se sentir os tempos se sobrepondo e essa sensação pode refletir nossos maiores medos. Os temores são sentimentos muito particulares e criativos. Eles podem usar muitas fantasias para nos assustar: um ranger de porta, uma sombra estranha, um ruído pouco familiar... A imaginação ganha força e acabamos vendo e ouvindo coisas que, aparentemente, não existem. Ou será que existem?!

O início do fim.

As melhores histórias deixam a amizade como herança. Além de você ter vivido momentos bons e se encantado com experiências novas, no fim você pode andar tranquilo pela rua. Se você esbarrar por acaso ou encontrar aquela pessoa que fez parte do seu dia-a-dia, não há constrangimento. Você olha pra ela de cabeça erguida, sorri e acena ou pára pra dar aquele abraço saudoso demonstrando o quanto aquela pessoa faz falta. Já que o fim é dolorido, melhor que seja amigável e honesto.

O ínicio do fim acontece quando a gente tem que reorganizar nossa rotina que acaba ficando entrelaçada com aquela pessoa. Você tem que lembrar que não vai mais chegar mensagem de boa noite no celular antes de você dormir. Se você estiver na varanda, olhando a rua, não vai mais ver alguém chegando naquele horário de sempre. Não vai mais implicar com aquela blusa que ele não tira do corpo e nem vai mais vê-lo fazendo caretas porque você demora pra se arrumar. O jeito de olhar, de beijar que são únicos de cada pessoa, vão se diluindo na memória. O sabor e o cheiro, antes tão familiares e sedutores, vão perdendo o vigor e desbotando como a imagem dos dois juntos. Mais tarde, é provável que os lugares que costumavam ir ganhem novas lembranças. Serão sempre lugares especiais, mas o sentimento de estar neles não será mais o mesmo.

A gente começa a se enxergar preenchendo sozinho todos os espaços que antes eram compartilhados. E nos lembramos que somos capazes de fazer isso. Na varanda, você olha as estrelas e conversa com um amigo sobre o dia divertido que tiveram. À noite, ouve música no celular até dormir. E começa a reparar nos encantos de outras pessoas interessantes que aparecem pelo caminho.

Quando essa reorganização não dói mais, estamos livres e prontos pra começar de novo. Outra história, outros dias compartilhados, outras possibilidades de sermos felizes.