sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Penso, logo hesito...

Quem pensa demais,
elabora tensões subliminares.
Encerra o desejo
em grades geométricas.
Calcula cada ato espontâneo.
Mede cada palavra afetuosa.
Põe em gráficos
a linha do tempo.
Define a coordenada
das emoções.
Desconfia do instinto.
Credita toda honra
ao pensamento:
um infinito
de variáveis controladas.

Em estreito deleite de vida,
entende as razões,
ignora as paixões,
nega a vontade...
Condena a liberdade,
como quem nega
a própria natureza.
Faz-se sobre-humano.
Esmaga o peito arfante.
Algoz e mártir.
Mata e morre.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Paixão move o imóvel

Às vezes fico imóvel.

Vejo coisas e nada faço.


Às vezes me mobilizo.

No susto, na paixão,

dou largada,

liberto o espírito!


Palavras velozes,

correm.

Explosão de energia!

Disputam cada passo,

flutuam, sentem o vento.

E na firmeza aérea,

de quem caminha

no impulso de liberdade,

cruzam a linha de chegada.

Vitória!

Ou não...


Correr sempre vale à pena.

Voar com os pés no chão.

Nem que seja

para dar a volta ao mundo.

Sem sair do lugar.

O percurso desfaz os medos.

A chegada refaz o juízo.

Da paixão à sensatez.

Eis o espaço percorrido.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dissecando a vida.

Eu era tão racional que dediquei três anos da minha vida dissecando cérebros de ratos na tentativa de entender como as coisas funcionam. Pensava que observando a porção microscópica da questão, lá estaria, em meio a moléculas elementares, um dicionário ilustrado ensinando a viver. Como alguém racional pode ser tão ingênuo a ponto de achar que pode entender tudo assim? Ou seria pretensão reducionista?

Indo fundo na questão, no tecido que estrutura nosso intelecto, que dá base química e física aos nossos pensamentos, acabei me perdendo da minha insistente tendência crítica. Encontrei rituais de sacrifício, sangue, fatias de cérebro, imagens brilhantes num microscópio magnífico que, por alguns instantes, me deslumbravam. E quanto mais eu estudava a incrível desenvoltura da nossa massa cinzenta, ia descobrindo que ser humano vai muito além de conexões neuronais, sinapses e toda a enciclopédia técnica que descreve como nosso cérebro funciona. Esse arsenal de conhecimento me disse que a compreensão da vida é mais ampla que entender química, física, biologia...

Lancei meu olhar para dentro das células, do núcleo delas, da sua capacidade de se reproduzir, mesmo em ambiente desfavorável. Investiguei a capacidade que as células do cérebro tem de se reinventarem diante da restrição alimentar aplicada nas origens do seu desenvolvimento, quando as células ainda estão se multiplicando para gerar um novo ser. Eu as desafiei, as provoquei, as privei de nutrientes e o que elas fizeram? Se adaptaram e me surpreenderam! De certa forma, me ensinaram um pouco a viver. Elas formaram tecido cerebral, estruturaram cérebros funcionais e me mostraram que a vida é assim: eu faço planos perfeitos, encaro as adversidades, improviso, dou um jeito e cresço. E não é por isso que eu vou crescer torta e mau-humorada. Porque se um dia algo faltou, eu estou viva agora, neste exato momento, com a oportunidade de recriar novos desfechos para a minha própria história.

Não se pode mudar a origem das nossas vidas, mas o daqui-por-diante nós podemos inventar todos os dias. Se as células são capazes de superar adversidades, nós, feitos de um punhado delas, também somos. Se usamos o cérebro, no sentido mais orgânico da palavra, e também no sentido de dar aos nossos pensamentos, e principalmente, às ações resultantes deles, novos e brilhantes caminhos, não precisamos invejar as células. Seremos bem-sucedidos cúmplices nessa aventura chamada vida!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Coração encantado

Palavras mágicas,
coração encantado.
Passos distraídos,
mãos de plumas.

Da cartola,
um sorriso.
Da manga,
um afago.
Cartas de amor,
voam no espaço.
Coelhos brancos,
nuvens desenhadas.
Lenços são peças,
embaraço despido.
Vapor do vazio,
sob olhos inocentes.
Surpresa!
Aplausos!
Extase!

Vida fascinante,
montanha-russsa,
roda gigante
dentro de si.
Aventura?
Magia?
Ilusão?
Não! Espetáculo!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Flocos de algodão

Sinto que sei.
Saber não diz nada.
Nada que se sente
é entendimento.
Começa espera.
Vira esperança.
Corre um fio
Frágil, quebrável.
Espera, sorriso.
Alegria,
flocos de algodão!

Não se faz.
Se deixa ir.
Suave, carinhosa.
Mente clara.
Céu de primavera.
Flores de cheiro.
Doce encanto.
Encantada.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

“I've got a feeling, a feeling deep inside.”

I know notting about it,
I don't know why, when, how long...
I just feel something I've lost some day
and it comes back again. 
To me, to both of us.
No idea...
Slowly, peacefully, tenderly.
I've got a running heart,
but it's not running away.
It grows up inside me,
but I don´t suffocate.
It's good, it's God, it's me.
How about it?
Sweet!
I'm happy, but I'm ok.
I don't live tomorrow.
Life is me today.

(Inspired on: I've Got a Feeling - Beatles)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Retina

Sua retina me desenha.
Se encanta com as palavras.
Se espanta com a verdade.
Se morde de curiosidade.
Se sente intimidada,
furtada, despida.
De um verso,
tira a roupa,
veste o véu da cumplicidade.
Se ilude, se entrega,
Ama.

Sua retina embaça
a mente.
E mente.
Seduz, reluz, traduz
sentidos sem direção.
Difração.
Arco, feixe, íris.
Nuvens eletrônicas,
magnéticas, indecifráveis.

Sua retina,
máquina ingênua,
decodifica desejos.
Faz que não sabe
tudo que desconhece
entre mim e você.