segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Eu gosto

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Gosto do que é cinematográfico. De tudo que é fantástico. Da beleza que há no que há de alegre e triste também. Gosto do que é feito com tesão, daquilo que é arrebatador e intenso. Tenho gosto pelo tragicômico e pelo humor atravessado. Não o que é amargo, disso só café sem açúcar e chocolate que quebra feito biscoito. Falo do jogo ácido de ideias, da esperteza em capturar significados como pescaria em mar aberto. Refiro-me à ironia sofisticada, sem ofensas e irresistível ao sorriso de canto de boca. Adoro boca! Adoro um largo e oferecido sorriso. Daqueles sem vergonha. Uma gargalhada generosa e inesperada.
Gosto de tudo que me corrói e depois liberta. Aquilo que abre o casulo e me permite esticar as asas e voar. A beleza de desfilar minhas cores e exibir a vida que reside em cada néctar sugado pela minha sedenta boca. Prefiro o espanto ao ordinariamente morno. Digo o espanto da surpresa, não o espanto do mal inesperado. Não quero mal nenhum que não seja um bem, no fim.
Eu não sigo a linha do tempo. Eu questiono sua originalidade e a desafio a todo instante. Claro, é como desafiar o sol olhando direto pra ele. É cego, estúpido, mas legítimo. Sempre analiso os resultados, mas não concluo nada. O sol nasce todo dia e o desafio renasce sempre. Há dias que tiro folga e deixo a vida fazer seu trabalho. Outros tento roubar seus mapas, seus planos de conquistar o mundo. Não resisto a essa diversão indolente.
Gosto de me mover e daquilo que me move. E adoro o que não sei, só pelo prazer de descobrir e depois me achar descoberta também. Conhecer é expor a si mesmo. Adoro o gosto que tem gostar das pessoas. Aquele gosto de casa, de aconchego. Mas se desconheço, não desgosto, mas desconfio. Meu coração não é aberto à visitação, é área restrita: Authorized Personnel Only.
Gosto de pensar que o mundo é ilimitado. E me perco com frequência. Crio regras novas, teorias mirabolantes para justificar minha liberdade inaceitável. Para fugir do sufocante universo das coisas possíveis, adentrando o fabuloso universo do inevitável, dos impulsos impensados, refletidos sobre mim mesma. Detesto dizer não a mim mesma. Adoro aqueles segundos imaginários que tento me persuadir a acreditar que tudo vai ficar bem. Mas a inocência sempre se perde. E meu coração vai junto. Aliás, gosto de ter um coração. Mesmo este pobre coração governado pelo razão e perdido de amores imaginários. E gosto de pensar no sexo como uma conjunção carnal. Poder se dissolver no outro, tornar-se permeável ao amor... O sexo faz da Química uma ciência superior e desafia os desígnios físicos de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. O sexo é prova cabal de que as experiências mais reproduzidas e bem sucedidas não tem nada a ver com tubos de ensaio. Não se desvenda, não se revela. É combustão espontânea.
Adoro caminhar au bord de la mer. É um alívio saber que há saída para o mar...

Encontro cósmico

Combinei com o universo:
nunca me deixe só!
Ele ouviu, girou...
Deu-me companhias,
deu-me alegrias,
deu-me alguma paz.

Mas a harmonia,
que nem eu sabia que queria,
isso ele não me deu.
Os meus lápis coloridos,
gastaram, se perderam
nas mudanças, nas lembranças,
nos caminhos até aqui.

Noutro dia,
que surpresa!
Da minha constelação,
da minha imensidão astral,
vi você chegando.
Interplanetária,
incomparável,
inevitável!

Por sorte ou razão,
por amor ou paixão,
por dentro,
por entre minhas mãos...

Um rastro de estrelas
você veio seguindo.
Num rastro de ideias
eu persisti.
Senti, sofri, vivi...
E, pirlimpimpim!
A mágica das cores
aconteceu!
Você apareceu
e tudo foi claro,
cósmico e lindo!
Enfim...
Paz, harmonia, companhia?
Sim, amor!

(Para Roxilda e Somildo, com amor)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A vida, uma dança.


A vida é como uma dança.
Um dia somos passos.
Outros, somos chão.
Bailamos,
mudamos de lugar.
Ou não mudamos.

Nos damos conta
de quanto o mundo é circular.
Não adianta parar.
Você vai girar!

Nos damos conta
de que essa festa
nos cerca de gente.
E, no fim
fica só quem importa.
Quem segura a sua mão.
Quem te enlaça, te afaga.
Sempre a te olhar
bem de perto.

Mudamos conforme o ritmo.
Ou mudamos o ritmo,
ao nosso gosto.
Ou desgosto.
Cantamos versos que
traduzem nossa alma.
Música é isso!
Intérprete da alma da gente.
Tão profunda, tão fugaz.
A música, a dança e a vida.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Escrever é a arte de dosar o auto-julgamento, desenvolver a tolerância e postergar o amor pela obra, pois que o escrito nos remete quase sempre a uma depressão pós-parto semântica.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Trabalho do céu é nos roubar o dia quando acostumamos com ele e nos roubar o sono no melhor aconchego do travesseiro. O trabalho do céu é jogar coisas sobre nossas cabeças e depois sorrir azul como se nada tivesse acontecido. Sonso...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Felidae

Você colhe o néctar da minha boca.
Profana e doce, num suspiro,
suga tudo...
minha fala,
meu sono.
minha lucidez.

Sua língua cúmplice
umedece meus anseios,
lambe minhas feridas,
lambe minha alma inteira.

Ambígua,
me cura, me fere.
Rasga sua fragilidade
impenetrável.
Despe suas garras de seda,
sobre sua penugem
cor de sol.
Acolhe-me íntimo
o sabor caramelado
precipitado e vão
do meu desassossego.