sexta-feira, 8 de outubro de 2010

É possível fingir. Esquecer, nunca.

É possível fingir qualquer coisa. É possível fingir que se esqueceu alguém ou algum momento marcante. É possível fingir. Esquecer, nunca. Por mais que se distraia, que se mude para outro continente, que se encontre outras razões para se alegrar... Por mais que a vida siga seu rumo, as lembranças nos seguem fiéis para onde quer que a gente vá. Nessas horas, pode vir o arrependimento do que se fez ou do que se deixou de fazer. É quando temos a noção precisa daquilo que poderia ter acontecido ou daquilo que aconteceu de fato. Um desejo negado e um realizado nos parecem igualmente presentes na memória. Ambos contam a mesma história por um ponto de vista diferente. Na verdade, o que não deveria ter acontecido, acaba ganhando vida espontânea, mesmo sem acontecer. O desejo pode ser tão grande que se materialize como uma realização imaginária com raízes tão ou mais profundas que as bases das histórias ditas reais.
Há quem diga que alguns desejos ficam melhores guardados, pois tornam-se prenúncio de tempestade se realizados. Mas se o desejo for tão insuportável a ponto de nos fazer ignorar o perigo da tempestade? E se for tão intenso que nos convença que podemos suportar a tempestade e sair dela inteiros? O que seria mais danoso, a angústia de negar o desejo ou as consequência de confessá-lo? A impossibilidade de ter ou a possibilidade de ter apenar uma vez? Será que ultrapassar certos limites oferece paz? Será que não ultrapassar oferece? E se ultrapassar... conhecer o "ter"e o "não ter" é capaz de acalmar o espírito? Ou inflama ainda mais? O ímpeto de realizar um desejo e a angústia inflamada de não realizá-lo tem a mesma intensidade?
Não sei... Por que após a linha que divide o desejo do fato, existe a redenção. Dizem... E, talvez, haja também uma redenção em não realizá-lo. O desejo foi vencido. Será que não era tão grande assim que se silencia tão depressa? A resposta seria esperar o tempo que desinflama a gente? Em não esperar, e se a realização não for suficiente? E se o desejo se alimentar do ímpeto, devorar seu juízo e dormir seu sono? E se for maior que qualquer regra ou ensinamento de moralidade? Maior que a consciência de si mesmo?
Mergulhar ou ponderar? Amores possíveis ou impossíveis? Difícil escolha.

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