segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Línguas afiadas,
peçonhentas.
Praguejam.
Reclamam do dia,
desdenham da noite.
Apontam cáusticas certezas
nas faces alheias.

Se exibem.
Cultivam alta estima
por si mesmas.
O que sobra em ousadia,
falta em ideias novas.
Planos, saídas... Nada!
Nenhuma fagulha inovadora.

São línguas inúteis.
Não beijam,
nem saboreiam a vida.
Apenas cospem grosseria estéril.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O poema precisa de tempo.
A vida precisa de poema.
A gente precisa de tempo.
A vida precisa da gente.

Precisar é presença.
A gente vivendo, experimentando.
Não apostando no depois.
Depois nada.
Depois pode não ser.
Depois já era.

Hoje tive um verso na mão.
Guardei-o num canto de papel.
Desleixo? Não! Cuidado.
Ele quase se perdeu no tempo.
Se não fosse a quina da folha em branco,
ele seria agora um esquecimento.

Salvei-o do fim de tantos doces devaneios.
Enterrados pelas obrigações.
Subtraídos pelas ideias velozes e vazias.
Morto pela falta da gente.

Guarde tempo, escreva os versos e seja hoje.
Depois é outra história.
Não nos pertence.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Quero ter uma palavra.
Ter não, presentear com uma palavra.

Ao invés de caixa enfeitada,
um significado exato.
Não sei se ter sentido é milagroso.
Não sei se é milagroso ter sentido.
Então, envio uma lembrança.
Daquelas simples, amáveis.
Daquelas que tem coração,
tem sentimentos, dores também.
Uma lembrança que chega e fica.
Lembrança forte.

Talvez essa palavra não cure tudo.

Ela nem pode ter essa divina pretensão.
Ou pode.
Quero acreditar que pode!
Pode, pronto!

Essa palavra que chega aí agora.
Tão distante.
Vai te dizer num afago:
_Estou aqui.
E docemente se apresentará:
_ Meu nome é amizade, mas pode me chamar de amiga.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Saí daqui onde chorava com medo do mundo.
Leito quente, farto e fragilizante.
Dei voltas hemisféricas, quadriláteras, obtusas!

O escuro azulado da noite
tão sereno, tão breve.
Gosto de prolongá-lo para escutar minhas dores.
Não há cura.
Há dia, sol...
Um azul iluminado que joga o infinito na minha cara!
Diz que sabe o que quero, o que preciso.
Audácia!
Ele não conhece meus segredos.

Sob o azul turquesa arrogante
protejo-me de tanta claridade.
Não me agrada exibir as rugas, os passos lentos, as ideias perdidas.
Nesta hora gosto do vento.
Meus cabelos enlouquecem.
Não há comparável imperfeição!

Devagar não é meu passo.
Engana-te!
Se meu corpo se alonga demais
se ele se esparrama...
É para abrigar tantos pensamentos.
Tantos que não sei se são meus
ou se sou deles.

Não choro mais.
Medito fazendo sopa quente.
A sopa desce apertada.
Fico reclusa à espera da madrugada
do silêncio doce que o azul de sol não traz.
É quando o mundo pára.
Parece gostar de mim.
Pareço gostar de mim.
Lembro de respirar.