sábado, 30 de novembro de 2013

Inteira

Não se engane que sou flor
porque sou mulher.
Sou árvore inteira!

Raízes, sumos.
Permeáveis folhas verdes.
Tronco rijo.
Seiva bruta e elaborada.
Uma riqueza.

De minhas eflorescências,
os que beijam flor se regalam.
Sou casa de passarinho.
Para borboletas,
o meio do caminho.

Sou generosa sombra
às almas cansadas.
Germino em comunhão
com o fruto.

Que frutos mais saborosos:
a vida! A flor! O encanto!

sábado, 9 de novembro de 2013

O assassinato do eu-tese pelo covarde eu-ingênuo
Ao longo do processo de produção de uma tese, o doutorando, enquanto sujeito de si, dividi-se em dois eus: o eu-ingênuo e o eu-tese.
O eu-ingênuo é cheio de boas intenções, se emociona ao falar de suas ideias, tem aquela empolgação que cativa qualquer banca avaliadora. O eu-ingênuo é um sujeito otimista e feliz! Enquanto isso, o eu-tese aguarda escondido, ansioso pelo momento de entrar no palco e roubar a cena. O eu-tese é voraz, impetuoso e cheio de sede de poder.
Com o tempo, o eu-tese mergulha em seu frenesi mental de racionalizar sobre tudo, criar conjunturas, teorias de conspiração. Os livros, textos e divagações filosófico-intelectuais são seu alimento e seu guia. Ele se sente genial e se imagina na proa de um enorme navio gritando: Sou o rei do mundo!!!! Ele parece invencível e é extremamente sedutor. Ele fala e tudo parece fazer sentido.
Em contrapartida, o eu-ingênio começa a receber suas primeiras críticas e não são como ele imaginava que seriam. Embora elas sejam demasiado duras, ele já começa a achar que a culpa é toda dele e pensa: eu não devo ter entendido direito, não estou estudando o suficiente. O eu-ingênuo se ressente, fica triste. A primeira dentre muitas vezes.
O eu-tese sente-se à vontade. Os processos, a burocracia, as demandas dos outros parecem só preencher seu desejo de dominar as artimanhas daquele contexto. Ele sequer percebe que está mergulhando de cabeça em águas profundas e frias. E que no fim, no inevitável fim, ele vai congelar e afundar lentamente em direção ao vazio escuro. 
O eu-ingênuo, a essa altura, não se reconhece mais. De suas ideias, só restou o cinismo, que o deixou à beira do abismo, abismo este que cavou com os próprios pés. A academia já triturou seus sonhos e reduziu suas ilusões à pó. O eu-ingênuo, este que acreditava que o que importava mesmo é a boa vontade e o potencial, perde a batalha para o Senhor do capital simbólico. O golpe de misericórdia se dá no momento em que os mais experientes dizem ao eu-ingênuo:"Você não pode dizer o que pensa, isso aqui é a Academia. Assim você não defende sua tese!". Então, enterrado pela frustração, o eu-ingênuo desenvolve um cinismo assassino, finalmente explodindo: defesa? Não sou eu quem precisar de defesa! 
O eu-tese treme diante do eu-ingênuo, este anjo vingador cheio de ódio e rancor. Ele ainda tenta argumentar: não vê o quanto de progresso fizemos? O quanto contribuímos para o avanço da ciência? O eu-ingênuo, entretanto, avança implacável em sua direção. 
Sem argumentos que possam conter a fúria apaixonada do seu oponente,  o eu-tese ajoelha-se e implora por sua vida. Em vão... O eu-ingênuo atira sem piedade. E fim da tese.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Esconderijo

Minha tristeza é um buraco fresco e úmido. Há raízes e cheiro de chuva. Antes eu tinha medo. Nem olhava. Imaginava que era um calabouço. Um poço fundo sem saída. 
Tenho olhado bem. Assim com curiosidade. Dilatando a pupila, posso ver os detalhes, as ranhuras, os musgos, o brilho da umidade feito aqueles bolos integrais cobertos com banana caramelada. Parece muito simples esse lugar, mas se você prova, é bem complexo e orgânico. É nutritivo, é denso.
Estou aqui meio que escondida. Levanto um pouco a cabeça, olho o mundo lá fora é este parece muito difuso, inconsistente e opressor. Há luz demais, barulho demais, gente demais. Minha cabeça dói. Não consigo pensar.
Meus pés sentem o chão e se enraízam. Há uma energia nesse lugar. Aquela energia que me faz lembrar quem sou eu, onde estou e o que estou fazendo aqui e no mundo. Aqui eu fico mais lenta, mais frágil, mais generosa. Nesse esconderijo, eu sei um pouco mais de mim. Sei que vou voltar. Só não sei ainda para onde. 
Neste buraco escuro e fresco com cheiro de mato, vou reaprendendo a ser eu. A preservar o meu eu, mesmo tendo que caminhar sob o sol escaldante do mundo.

sábado, 26 de outubro de 2013

Sempre quis ser homem.

Eu aprendi que não se deve ficar choramingando, nem chorando à toa. Homem que é homem não chora, enfrenta o problema, supera as adversidades. Chorar é para os fracos e para mulherzinha.
Passei muito tempo da minha vida querendo ser homem. Minha atitude era agressiva, eu não usava rosa e jamais chorava na frente das outras pessoas_ uma característica que permanece até hoje. Eu precisava ser inteligente, racional e precisa. Sem duvidazinhas, sem sentimentalismos. Os problemas precisavam ser resolvidos e vida que segue, como um trator esmagando aqueles chorões, mocinhas, viadinhos e toda horda de pessoas fracas. 
Eu nunca quis mudar de sexo ou me vestir como os homens, só queria parecer forte como eles. E no processo, sem me dar conta, eu desprezava não só aquilo que eu era enquanto mulher, mas também o que de fato são eles enquanto homens. Eu pouco sabia sobre mulheres e homens. E pouco entendia o que eram sentimentos e escolhas. A minha versão dos fatos era distorcida, dicotomizada e infeliz.
Chorar, tão natural como comer e dormir, é das coisas mais importantes para a manutenção da sanidade. É a catarse, é quando transbordamos nossas emoções. Felizes aqueles que não construíram represas. E infelizes também porque são considerados frágeis. E frágil não é considerado um ser humano desejável. Não nessa sociedade na qual vivemos. Sociedade que idolatra figuras masculinas sacrificadas e com força sobrenatural. E exige dos demais que sejam brutos sacrificados, homens comuns que não podem chorar. Se o homem não pode ser o ídolo , que ao menos demonstre sacrifício para provar seu valor. 
E as mulheres? Não importam muito. Suas funções já foram bem definidas desde o início, assim como a dos homens. São cheias de emoções, coitadas. Tem que ser protegidas, cuidadas, enquanto cuidam de suas crias. O afeto só vale mesmo para fazer crescer os bebês. No momento que os bebês deixam sua condição de seres liguisticamente limitados, pronto, já começam a aprender que quem veste azul não chora e ainda deve proteger aquelas bonequinhas ali vestidas de rosa.
Durante muito tempo eu quis ser homem. Eu estava errada. A sociedade está errada. Na verdade, eu sempre quis ser humana, mas entre ficar de rosa e de azul, sempre achei o azul mais interessante. Agora, eu quero outras cores! Quero cores que representem a força da afetividade aliada à fragilidade inerente à racionalidade humana. Quero a cor da generosidade, a cor do amor. Não o amor do sacrifico, mas o do respeito. Somos homens, mulheres, somos tantos, somos tão diversos, somos muito mais que rosa e azul. E temos todo o direito de chorar, quando e onde quisermos. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Os programas de auditório idiotizantes, 
os jornais nacionais estéreis,
os programas de culinária lipídicos, 
os debates ensaiados, 
as novelas estereotipadas, 
os dramalhões insólitos,
a solidariedade forjada, 
a graça escrota da desgraça alheia.
Nada disso me representa.

Desligue a TV, ligue as suas idéias.
E vá pra rua!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Oficio árduo este de investigar o mundo.
Tantos para quês!

Existir não basta.
Mergulha-se no abismo.
Sozinho, despedaçado, impetuoso!
Abismo de si mesmo.
Infinito abissal de idéias abstratas.

Quem vai entender a desconstrução?
A aniquilação do conforto de saber tudo de si,
Saber tudo de tudo.
Certezas, certezas...
Todas perdidas, desacreditadas.

Riso e choro intercalam-se.
Ritmados, enlouquecidos, enfadados.
Para quê?!
Para que sair do eixo? 
Para quê andar tão longe de si mesmo?

Talvez para se olhar de frente.
Ali, cara a cara.
Por todos os ângulos.
E descobrir ser muitas vidas numa só.
E sendo muitas,
Talvez possa olhar o mundo, assim...
Com mais generosidade e rigor.
Generosidade para acolher o diverso.
Rigor para desejar o melhor.

Sendo o diverso e o melhor tão relativos,
As perguntas seguem vivas.
As respostas seguem fugidias.



quarta-feira, 6 de março de 2013

Amizade é o quê?
Carinho? Cumplicidade? 
Vínculo desejado? Escolha livre?
É saudade que se sente?
É conforto que se tem?

Amigo é o quê?
A quem amamos sem romance?
Com quem compartilhamos idéias, vícios até?
"Que me entende do início ao fim"?
Ou não entende, mas respeita?
Admira o diverso, o autêntico.

Começa onde? Acaba quando?

Amizade tem fim? Tem começo?
Amigo fica e vai e volta?
Ou nem precisa voltar? Ou ficar.
É e pronto. 
E volta e fica. 
E vai de novo.

Sempre esteve. 
Sempre estará...
Sempre estarei?
Sempre estarão?

sábado, 26 de janeiro de 2013

Hoje é dia dos afetos.
Aqueles que vejo sempre, amo sempre.
Aqueles que não vejo mais...

É dia dos afetos itinerantes, dos saltitantes.
Dispersos, loucos, inconstantes.
Dos afeitos à cumplicidade.

É dia de quem deixou de me entender.
Por escolha, desalinho...
E dos que eu deixei de admirar também.

Hoje é dia dos afetos livres.
E daqueles condensados em doce desalento.
Ou tormento.

Afetos possíveis, incríveis!
Imaginários, extraordinários!

Hoje é dia de baile
nos meus pensamentos.
E na valsa da memória,
o tempo dança,
o sorriso encanta,
os olhos marejam.
.