segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Esconderijo

Minha tristeza é um buraco fresco e úmido. Há raízes e cheiro de chuva. Antes eu tinha medo. Nem olhava. Imaginava que era um calabouço. Um poço fundo sem saída. 
Tenho olhado bem. Assim com curiosidade. Dilatando a pupila, posso ver os detalhes, as ranhuras, os musgos, o brilho da umidade feito aqueles bolos integrais cobertos com banana caramelada. Parece muito simples esse lugar, mas se você prova, é bem complexo e orgânico. É nutritivo, é denso.
Estou aqui meio que escondida. Levanto um pouco a cabeça, olho o mundo lá fora é este parece muito difuso, inconsistente e opressor. Há luz demais, barulho demais, gente demais. Minha cabeça dói. Não consigo pensar.
Meus pés sentem o chão e se enraízam. Há uma energia nesse lugar. Aquela energia que me faz lembrar quem sou eu, onde estou e o que estou fazendo aqui e no mundo. Aqui eu fico mais lenta, mais frágil, mais generosa. Nesse esconderijo, eu sei um pouco mais de mim. Sei que vou voltar. Só não sei ainda para onde. 
Neste buraco escuro e fresco com cheiro de mato, vou reaprendendo a ser eu. A preservar o meu eu, mesmo tendo que caminhar sob o sol escaldante do mundo.

sábado, 26 de outubro de 2013

Sempre quis ser homem.

Eu aprendi que não se deve ficar choramingando, nem chorando à toa. Homem que é homem não chora, enfrenta o problema, supera as adversidades. Chorar é para os fracos e para mulherzinha.
Passei muito tempo da minha vida querendo ser homem. Minha atitude era agressiva, eu não usava rosa e jamais chorava na frente das outras pessoas_ uma característica que permanece até hoje. Eu precisava ser inteligente, racional e precisa. Sem duvidazinhas, sem sentimentalismos. Os problemas precisavam ser resolvidos e vida que segue, como um trator esmagando aqueles chorões, mocinhas, viadinhos e toda horda de pessoas fracas. 
Eu nunca quis mudar de sexo ou me vestir como os homens, só queria parecer forte como eles. E no processo, sem me dar conta, eu desprezava não só aquilo que eu era enquanto mulher, mas também o que de fato são eles enquanto homens. Eu pouco sabia sobre mulheres e homens. E pouco entendia o que eram sentimentos e escolhas. A minha versão dos fatos era distorcida, dicotomizada e infeliz.
Chorar, tão natural como comer e dormir, é das coisas mais importantes para a manutenção da sanidade. É a catarse, é quando transbordamos nossas emoções. Felizes aqueles que não construíram represas. E infelizes também porque são considerados frágeis. E frágil não é considerado um ser humano desejável. Não nessa sociedade na qual vivemos. Sociedade que idolatra figuras masculinas sacrificadas e com força sobrenatural. E exige dos demais que sejam brutos sacrificados, homens comuns que não podem chorar. Se o homem não pode ser o ídolo , que ao menos demonstre sacrifício para provar seu valor. 
E as mulheres? Não importam muito. Suas funções já foram bem definidas desde o início, assim como a dos homens. São cheias de emoções, coitadas. Tem que ser protegidas, cuidadas, enquanto cuidam de suas crias. O afeto só vale mesmo para fazer crescer os bebês. No momento que os bebês deixam sua condição de seres liguisticamente limitados, pronto, já começam a aprender que quem veste azul não chora e ainda deve proteger aquelas bonequinhas ali vestidas de rosa.
Durante muito tempo eu quis ser homem. Eu estava errada. A sociedade está errada. Na verdade, eu sempre quis ser humana, mas entre ficar de rosa e de azul, sempre achei o azul mais interessante. Agora, eu quero outras cores! Quero cores que representem a força da afetividade aliada à fragilidade inerente à racionalidade humana. Quero a cor da generosidade, a cor do amor. Não o amor do sacrifico, mas o do respeito. Somos homens, mulheres, somos tantos, somos tão diversos, somos muito mais que rosa e azul. E temos todo o direito de chorar, quando e onde quisermos.