sábado, 9 de novembro de 2013

O assassinato do eu-tese pelo covarde eu-ingênuo
Ao longo do processo de produção de uma tese, o doutorando, enquanto sujeito de si, dividi-se em dois eus: o eu-ingênuo e o eu-tese.
O eu-ingênuo é cheio de boas intenções, se emociona ao falar de suas ideias, tem aquela empolgação que cativa qualquer banca avaliadora. O eu-ingênuo é um sujeito otimista e feliz! Enquanto isso, o eu-tese aguarda escondido, ansioso pelo momento de entrar no palco e roubar a cena. O eu-tese é voraz, impetuoso e cheio de sede de poder.
Com o tempo, o eu-tese mergulha em seu frenesi mental de racionalizar sobre tudo, criar conjunturas, teorias de conspiração. Os livros, textos e divagações filosófico-intelectuais são seu alimento e seu guia. Ele se sente genial e se imagina na proa de um enorme navio gritando: Sou o rei do mundo!!!! Ele parece invencível e é extremamente sedutor. Ele fala e tudo parece fazer sentido.
Em contrapartida, o eu-ingênio começa a receber suas primeiras críticas e não são como ele imaginava que seriam. Embora elas sejam demasiado duras, ele já começa a achar que a culpa é toda dele e pensa: eu não devo ter entendido direito, não estou estudando o suficiente. O eu-ingênuo se ressente, fica triste. A primeira dentre muitas vezes.
O eu-tese sente-se à vontade. Os processos, a burocracia, as demandas dos outros parecem só preencher seu desejo de dominar as artimanhas daquele contexto. Ele sequer percebe que está mergulhando de cabeça em águas profundas e frias. E que no fim, no inevitável fim, ele vai congelar e afundar lentamente em direção ao vazio escuro. 
O eu-ingênuo, a essa altura, não se reconhece mais. De suas ideias, só restou o cinismo, que o deixou à beira do abismo, abismo este que cavou com os próprios pés. A academia já triturou seus sonhos e reduziu suas ilusões à pó. O eu-ingênuo, este que acreditava que o que importava mesmo é a boa vontade e o potencial, perde a batalha para o Senhor do capital simbólico. O golpe de misericórdia se dá no momento em que os mais experientes dizem ao eu-ingênuo:"Você não pode dizer o que pensa, isso aqui é a Academia. Assim você não defende sua tese!". Então, enterrado pela frustração, o eu-ingênuo desenvolve um cinismo assassino, finalmente explodindo: defesa? Não sou eu quem precisar de defesa! 
O eu-tese treme diante do eu-ingênuo, este anjo vingador cheio de ódio e rancor. Ele ainda tenta argumentar: não vê o quanto de progresso fizemos? O quanto contribuímos para o avanço da ciência? O eu-ingênuo, entretanto, avança implacável em sua direção. 
Sem argumentos que possam conter a fúria apaixonada do seu oponente,  o eu-tese ajoelha-se e implora por sua vida. Em vão... O eu-ingênuo atira sem piedade. E fim da tese.

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