sábado, 26 de outubro de 2013

Sempre quis ser homem.

Eu aprendi que não se deve ficar choramingando, nem chorando à toa. Homem que é homem não chora, enfrenta o problema, supera as adversidades. Chorar é para os fracos e para mulherzinha.
Passei muito tempo da minha vida querendo ser homem. Minha atitude era agressiva, eu não usava rosa e jamais chorava na frente das outras pessoas_ uma característica que permanece até hoje. Eu precisava ser inteligente, racional e precisa. Sem duvidazinhas, sem sentimentalismos. Os problemas precisavam ser resolvidos e vida que segue, como um trator esmagando aqueles chorões, mocinhas, viadinhos e toda horda de pessoas fracas. 
Eu nunca quis mudar de sexo ou me vestir como os homens, só queria parecer forte como eles. E no processo, sem me dar conta, eu desprezava não só aquilo que eu era enquanto mulher, mas também o que de fato são eles enquanto homens. Eu pouco sabia sobre mulheres e homens. E pouco entendia o que eram sentimentos e escolhas. A minha versão dos fatos era distorcida, dicotomizada e infeliz.
Chorar, tão natural como comer e dormir, é das coisas mais importantes para a manutenção da sanidade. É a catarse, é quando transbordamos nossas emoções. Felizes aqueles que não construíram represas. E infelizes também porque são considerados frágeis. E frágil não é considerado um ser humano desejável. Não nessa sociedade na qual vivemos. Sociedade que idolatra figuras masculinas sacrificadas e com força sobrenatural. E exige dos demais que sejam brutos sacrificados, homens comuns que não podem chorar. Se o homem não pode ser o ídolo , que ao menos demonstre sacrifício para provar seu valor. 
E as mulheres? Não importam muito. Suas funções já foram bem definidas desde o início, assim como a dos homens. São cheias de emoções, coitadas. Tem que ser protegidas, cuidadas, enquanto cuidam de suas crias. O afeto só vale mesmo para fazer crescer os bebês. No momento que os bebês deixam sua condição de seres liguisticamente limitados, pronto, já começam a aprender que quem veste azul não chora e ainda deve proteger aquelas bonequinhas ali vestidas de rosa.
Durante muito tempo eu quis ser homem. Eu estava errada. A sociedade está errada. Na verdade, eu sempre quis ser humana, mas entre ficar de rosa e de azul, sempre achei o azul mais interessante. Agora, eu quero outras cores! Quero cores que representem a força da afetividade aliada à fragilidade inerente à racionalidade humana. Quero a cor da generosidade, a cor do amor. Não o amor do sacrifico, mas o do respeito. Somos homens, mulheres, somos tantos, somos tão diversos, somos muito mais que rosa e azul. E temos todo o direito de chorar, quando e onde quisermos.