segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Esconderijo

Minha tristeza é um buraco fresco e úmido. Há raízes e cheiro de chuva. Antes eu tinha medo. Nem olhava. Imaginava que era um calabouço. Um poço fundo sem saída. 
Tenho olhado bem. Assim com curiosidade. Dilatando a pupila, posso ver os detalhes, as ranhuras, os musgos, o brilho da umidade feito aqueles bolos integrais cobertos com banana caramelada. Parece muito simples esse lugar, mas se você prova, é bem complexo e orgânico. É nutritivo, é denso.
Estou aqui meio que escondida. Levanto um pouco a cabeça, olho o mundo lá fora é este parece muito difuso, inconsistente e opressor. Há luz demais, barulho demais, gente demais. Minha cabeça dói. Não consigo pensar.
Meus pés sentem o chão e se enraízam. Há uma energia nesse lugar. Aquela energia que me faz lembrar quem sou eu, onde estou e o que estou fazendo aqui e no mundo. Aqui eu fico mais lenta, mais frágil, mais generosa. Nesse esconderijo, eu sei um pouco mais de mim. Sei que vou voltar. Só não sei ainda para onde. 
Neste buraco escuro e fresco com cheiro de mato, vou reaprendendo a ser eu. A preservar o meu eu, mesmo tendo que caminhar sob o sol escaldante do mundo.