domingo, 3 de agosto de 2014

Os cupins chegando
As luzes se apagando
A música começando
Nós no escuro dançando

Os cupins se vão
As luzes retornarão
Eu ainda no embalo da canção
Quem precisa de escuridão?

domingo, 6 de julho de 2014

A academia e os espelhos

Quem é essa pessoa?
Essa de roupa estrangulante.

Ah, sim, as regras.
Tem que apertar
Tem que suar
Um tanto de dor
É essencial.

Muito peso a levantar
Músculo a contrair
Energia a gastar
Ideia a sumir.

Duplicatas nos espelhos
Todos tão iguais
Engano
Cadê a gente?

Na saída, água fresca
Que inferno lá dentro
Afetos secos
Terra compactada
E a pessoa, nada?

Nada para longe do aquário
Descobre a parede invisível
Quebra, deságua
Morre.

Renasce a liberdade
Esta mentira deslavada
Que é melhor que espelhos
Melhor que nada.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Afogamento

Como num afogamento
eu corri, gritei,
chamei ajuda.

Nadei contra ondas enormes
me perdi na espuma dos dias.
Avancei na solidão da arrebentação.
Quem sou eu senão um grão?

Mergulhei, mergulhei.
O horizonte, ele rodava.

Era branco, era água,
chegando perto
achei nada.

Só minha vontade afogada,
junto ao que queria salvar.




quinta-feira, 8 de maio de 2014

A atual cura para o produtivismo acadêmico


Até logo. Espero que você fique bem. Quer dizer, melhor. Você sabe, estou indo porque essa doença é contagiosa. Alguns especialistas me advertiram que eu preciso me afastar para melhorar também. Para sair do processo de recontaminação, entende?
Não queria que fosse assim. Não mesmo. Mas só de lembrar dos sintomas da tal patologia, já me dá dor de cabeça. Até um pouco de azia, diria. Esse estado febril permanente. Tantas coisas passando pela cabeça e dando cambalhotas. Não daquelas que as crianças dão alegremente. Aquelas cambalhotas de quem "levou um caixote" tentando pegar onda na praia. Eu sentia as viradas ásperas, a falta de ar e a sensação de infinitude daquele momento.
Essa coisa é muito contagiosa. Quem está acometido fica meio desorientado. Perde a noção de realidade, sabe. A pessoa acha que aquela condição de saúde é normal. Ouvi muito isso. Suspeito quando começam a dizer " a vida é assim mesmo". Em geral, tem coisa errada acontecendo. Mas essa coisa errada fica tão entranhada na malha da vida dessas pessoas que não é possível mais olhar com estranheza.
Pelo que ouvi das demais pessoas acometidas pelo problema, cada um tem sintomas particulares. Em geral, são afetadas as partes do corpo que são mais vulneráveis na pessoa. Doença oportunista essa. Meu sistema digestivo que sempre foi mais sensível, nossa, sofreu! E a insônia? E a sensação de que nada que eu fazia era suficiente! Sensação de frustração interminável. Sintomas que não tinham qualquer paridade com os exames bioquímicos que eu fazia. Na visão da medicina ocidental, eu estava ótima! Foi a acupuntura que me permitiu seguir em frente.
Há os que vão embora antes do fim do ciclo. Saem com suas sequelas, suas feridas ainda abertas e eu não saberia dizer se a cura acontece espontaneamente depois disso. Há os que ficam, como eu. Completam o ciclo da doença e um dia recebem alta. Os sintomas, posso dizer que cessaram. Minha saúde apresenta hoje uma qualidade que nunca teve. As análises semanais ajudaram muito! Essenciais. Afinal, a patologia envolvia a sobrecarga da mente e efeitos nefastos sobre o corpo e o bem-estar emocional e social.
Recentemente tive minha cura dessa moléstia chamada Produtivismo Acadêmico. Ficou só uma certa tristeza por ver que o trabalho de pesquisar e pensar, tão querido por mim, me fez adoecer.
Quando disse acima "volto logo", é por isso. Gostaria que a academia deixasse de ser uma incubadora de patógenos, tais quais: a falta de tempo pra pensar, a indiferença, a desvalorização do afeto, a agressividade gratuita, a falta de prazer e de entusiasmo crónicos, dentre outras. É como uma maçã envenenada. A moça que oferece parece tão simpática, a maçã parece tão saborosa e bonita. Parece.
No fim, somos seres humanos nos submetendo a um modo de trabalho que subtrai boa parte do que somos. Talvez dizer que volto logo seja muito otimismo, afinal, estão começando agora a detectar o problema. Pode levar tempo para o cenário se transformar. Todavia, mantenho minha posição em aberto.
Fiquei otimista assim depois da cura.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Ele faz grooves.
Com a gravidade
de acordes amadeirados,
perfumados,
densos.

Rasgam a língua
com o tempo.

As emoções vacilam
com bossa,
com blues.
A noite é deliciosa e breve.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Somos todos macacos?
Não, somos mais complicados que isso.
Complexos, diria.
Por vezes obscuros até.

Somos todos bananas?
Não, somos mais variados que isso.
Diversos, diria.
Por vezes desvairados até.

Somos todos humanos?
Não, somos mais egocêntricos que isso.
Arrogantes, diria.

Por vezes tiranos até.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Quero dar tempo ao tempo
Ter tempo de ver o tempo passar
A tempo de viver com tempo para chegar



Quero um longo tempo para viver
Todo tempo para lembrar 
Que o tempo é precioso 
Passa devagar 
Tempo cura 
Tempo para recomeçar 



Tempo imenso 
Meio tempo, meio contratempo 
Tempo inteiro 
Passatempo 
Tempo que não passa 
Que dói, que desgraça
 

Há tempos o amor disfarça 
essas dores, esses temporais 
Expande o espaço-tempo 
O inicio e o fim se beijam 
Enfim! 



Nesse instante esqueço 
que existo apenas 
e extraordinariamente 
num sopro suave 
 e imprevisível de tempo. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Agradecimentos


Tenho ciência deste lugar.
Ninho de pensamentos.
Leito de ilusões.
Este onde coloquei a mim mesma.
Por minha conta e risco.

Não me acusem de mal-agradecida!
Sei de todas as figuras,
Criaturas, como prefiro,
Que ao meu lado permaneceram.
Firmes, doces, essenciais...
Mãe, pai, irmão.
Amigos e amigas,
Queridos, queridas.
Recentes, de tantos anos.

Sei dos mais experientes,
Professores, doutores.
Tão diversos, tão ricos.
Tão parceiros dessa história.
Minha história, nossa história.
Tantos nomes!
Daria um Lusíadas.

Afetos, conflitos.
Anseios, alívios.
Finais, recomeços.
Tantos tropeços.
Dores que só eu senti.
E ainda sinto!
Pois que parto daqui.
E as idéias ficam.

Que trauma deixar minhas entranhas!
Para morar num papel branco qualquer.
Mãe ingrata! Elas gritam.
E eu digo: voem!

Nessa hora, perco o verso.
A prosa, o chão.
A poesia acaba.
E começa essa ingrata,
Feroz e implacável jornada chamada ciência.


Ao meu amor serei atenta e digo, nesta jornada é contigo que eu fico! Sempre.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

No meu deserto particular
A chuva chega devagar
Gota aqui, gota ali
Não há para onde ir

De repente, céu cinzento
Mas eu espero um momento
Não posso crer que a vejo
Em seu ilusório gracejo

Desta vez, que engano meu
Não sei o que sucedeu
Sei sim!
É sempre assim!

Chega emproada
Faz que nada
Estufa o peito
Sopra com efeito!

A água cai densa
Mas sem ofensa
Inunda de um jeito...
Sim, me diz respeito.

Emoções demais
Tão reais...
As ondas me engolem
Me acolhem

Nem tento não me afogar.




sábado, 15 de fevereiro de 2014

Bambuzal

O bambu balança,
balança.
O vento fugidio
sopra a dança.

E trança.
Crinas douradas,
os caules verdes
galopam.

Selvagens!

Correm sua liberdade
de planta enraizada.
Remam em terra,
rio abaixo.
Corredeiras,
pedras,
cachoeiras.
Mar aberto!

No azul imaginário
do horizonte desses versos,
eles rumam ao infinito.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Saudade daquele mar.
Meu por direito.
Pois que a ele dediquei
amor incondicional.

 Como resistir ao azul
dos seus olhos?
E seus braços longos
arenosos e febris.

Deitava-me no silêncio
 das ondas espumantes
 de seu desassossego.
Feliz!

No inverno,
 seu humor acinzentado
me arrepiava o corpo inteiro.

No verão,
 repousava alaranjado
 sobre minha pele quente.

 Mas o tempo,
Implacável,
 Passou por nós em cheio.
Levou minha inocência.
 Tirou você de mim.

Hoje sonho.
Revivo os passos macios.
 O vento aveludado.
 E caminho por seus limites.

 Atravesso ondas
que quebram minhas memórias.
 Estes doces e alvos grãos.
 Areia que o tempo leva.
E traz de volta.
E leva outra vez.

A saudade é assim,
nunca morre.
Vive quieta e serena
dentro de mim.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

minhA aLegria está para queM souber enxergAr.
Quem escreve?
Quem escreve a tese?
Se não sou eu.

A que tem saudade?
A que teve paixão?
A que vê os farelos do desejo?
A que apreciava o pão?

As palavras são febris.
Consomem o tempo.
O suor goteja.
Não há brisa, nem paz.

Os relógios param.
A neblina é densa,
úmida e quente.

Insisto em escrever.
É o fim da linha
ou o começo de mim?

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Relíquias se dissolvem
bem diante dos meus olhos.

Não faço nada.
Ou quase nada.
Lamento.
Não há nada que atrase
o caminhar inevitável do tempo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Limites imaginários

Penso que meu corpo seja o limite físico das minhas idéias e que minhas idéias sejam os limites imaginários do meu corpo.
O corpo que sustenta idéias dói, cansa, adoece, sente, cresce, se transforma, limitando as ambições desmedidas das idéias.
As idéias, embora sejam alimentadas pelas experiências e seja alimento para as expectativas, são minhas apenas no meu corpo, no meu imaginado corpo. No discurso, na interação, na representação, as idéias já não são apenas minhas, embora elas sejam eu em alguma medida.
O meu conceito de idéia também é restrito ao meu universo imaginado. E, na minha teoria, talvez não envolva o outro. Talvez o meu conceito de idéia constitua a minha ilusão de uma identidade original.
Escrever é pintar na tela branca e indistinta traços do que chamamos de idéias. É o tipo de pintura complexa de cores não óbvias. Uma paleta de tons, silhuetas, intencionalidades, desejos e desapontamentos.

Aos olhos inexperientes, parece simples, preto no branco. Mas, se olhar com cuidado, tem todas as cores imagináveis impressas ali. Uma vida.