quinta-feira, 8 de maio de 2014

A atual cura para o produtivismo acadêmico


Até logo. Espero que você fique bem. Quer dizer, melhor. Você sabe, estou indo porque essa doença é contagiosa. Alguns especialistas me advertiram que eu preciso me afastar para melhorar também. Para sair do processo de recontaminação, entende?
Não queria que fosse assim. Não mesmo. Mas só de lembrar dos sintomas da tal patologia, já me dá dor de cabeça. Até um pouco de azia, diria. Esse estado febril permanente. Tantas coisas passando pela cabeça e dando cambalhotas. Não daquelas que as crianças dão alegremente. Aquelas cambalhotas de quem "levou um caixote" tentando pegar onda na praia. Eu sentia as viradas ásperas, a falta de ar e a sensação de infinitude daquele momento.
Essa coisa é muito contagiosa. Quem está acometido fica meio desorientado. Perde a noção de realidade, sabe. A pessoa acha que aquela condição de saúde é normal. Ouvi muito isso. Suspeito quando começam a dizer " a vida é assim mesmo". Em geral, tem coisa errada acontecendo. Mas essa coisa errada fica tão entranhada na malha da vida dessas pessoas que não é possível mais olhar com estranheza.
Pelo que ouvi das demais pessoas acometidas pelo problema, cada um tem sintomas particulares. Em geral, são afetadas as partes do corpo que são mais vulneráveis na pessoa. Doença oportunista essa. Meu sistema digestivo que sempre foi mais sensível, nossa, sofreu! E a insônia? E a sensação de que nada que eu fazia era suficiente! Sensação de frustração interminável. Sintomas que não tinham qualquer paridade com os exames bioquímicos que eu fazia. Na visão da medicina ocidental, eu estava ótima! Foi a acupuntura que me permitiu seguir em frente.
Há os que vão embora antes do fim do ciclo. Saem com suas sequelas, suas feridas ainda abertas e eu não saberia dizer se a cura acontece espontaneamente depois disso. Há os que ficam, como eu. Completam o ciclo da doença e um dia recebem alta. Os sintomas, posso dizer que cessaram. Minha saúde apresenta hoje uma qualidade que nunca teve. As análises semanais ajudaram muito! Essenciais. Afinal, a patologia envolvia a sobrecarga da mente e efeitos nefastos sobre o corpo e o bem-estar emocional e social.
Recentemente tive minha cura dessa moléstia chamada Produtivismo Acadêmico. Ficou só uma certa tristeza por ver que o trabalho de pesquisar e pensar, tão querido por mim, me fez adoecer.
Quando disse acima "volto logo", é por isso. Gostaria que a academia deixasse de ser uma incubadora de patógenos, tais quais: a falta de tempo pra pensar, a indiferença, a desvalorização do afeto, a agressividade gratuita, a falta de prazer e de entusiasmo crónicos, dentre outras. É como uma maçã envenenada. A moça que oferece parece tão simpática, a maçã parece tão saborosa e bonita. Parece.
No fim, somos seres humanos nos submetendo a um modo de trabalho que subtrai boa parte do que somos. Talvez dizer que volto logo seja muito otimismo, afinal, estão começando agora a detectar o problema. Pode levar tempo para o cenário se transformar. Todavia, mantenho minha posição em aberto.
Fiquei otimista assim depois da cura.